Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

-- INSOLITUM - Praia dos Anjos: Parte III

- É exatamente por eu gostar que a gente não vai mais se ver. – Disse e então acertou a chave, virando-a e abrindo o portão.

Carlos sorriu, por um lado estava enormemente aliviado, por outro estava mais enormemente ainda confuso.

- Eu não entendi...

Ada virou-se para o rapaz uma última vez, estava séria e decidida.

- Você não quer e, mesmo que queira, não merece alguém como eu na sua vida. Então vou te poupar desse grande problema. – Disse, então tentou entrar no pátio do prédio, mas a mão de Carlos pousou no portão, impedindo-a de entrar.

- Acho que isso é uma escolha minha. – Carlos também estava sério e decidido agora.

- E minha também. E escolho não. Boa noite Carlos. – Disse Ada e então entrou, trancando o portão em seguida.

Carlos permaneceu em pé, ao lado do portão por mais algum tempo, estava tentando entender o que havia acontecido. O café havia rolado bem ou não afinal? Por que Ada estava fugindo dele? Por que ele tinha a sensação de que havia algo maior nisso tudo? Tantas e tantas perguntas... Carlos finalmente entrou em seu carro e seguiu para sua própria casa, precisar esfriar as idéias.


Do outro lado do portão Ada estava com o coração a mil, os olhos vermelhos segurando as lágrimas, o sentimento de perda, a decepção... Ela sabia que não podia ter uma vida normal, nem um namorado e nem uma família. Já que era assim, então melhor não ferir ninguém por conta de seu problema, sua condição, e fora perda de tempo e maldade ter dado ao rapaz a mísera esperança de que poderia haver qualquer coisa...

A garota se agarrou mais ao sobretudo e seguiu até as escadas, precisava de um bom banho quente e um filme horrível para melhorar um pouco. Sim, talvez uma dose da sua vida cotidiana insuportável a fizesse bem nesse momento.

***

Carlos morava em um prédio grande, onde também residiam seus pais e um tio por parte da família de sua mãe. O apartamento do rapaz não era muito grande, mas bem confortável.

Assim que Carlos chega seu celular toca. Ele atende e do outro lado da linha está sua mãe.

-  Fala mãe, o que a Senhora quer agora? – O rapaz diz enquanto se joga no sofá.

- Você comeu alguma coisa hoje? Ví que passou o dia todo fora, e você sabe que não pode ficar sem comer nada. Estava falando com seu pai hoje, e ele também acha que...

- Mãe, por favor! Eu sei me cuidar! Já o suficiente que a Senhora e o meu pai estejam morando no mesmo prédio que eu. – Carlos falava num tom sério e decisivo. Levantou-se e foi até a cozinha checar a geladeira - Eu já disse e repito, não vou voltar a morar com vocês, não importa quantas vezes me peça, e pare de por o meu pai nisso, sei muito bem que a interessada nisso é a Senhora. Ele já me disse que por ele tudo bem eu me virar. – Carlos encontrou um refratário com um pedaço de pizza, tirou-o da geladeira e o enfiou no microondas.

- Não fale assim com a sua mãe... E seu pai não sabe o que diz. E se você tiver uma recaída, e se tiver uma crise quando não houver ninguém por perto?! Eu jamais me perdoaria se...

- Mãe, eu vou ficar bem. – Disse retirando o refratário do microondas e colocando sobre a bancada – A Senhora e o meu pai não vão viver pra sempre, então preciso aprender agora a me virar, enquanto ainda posso contar com vocês. – Pegou o pedaço da pizza quente com um guardanapo de papel para não queimar os dedos e começou a comer.

- Eu sei, eu sei – Carlos ouve sua mãe suspirar do outro lado da linha – Eu só quero me certificar de que você vai ficar bem. É isso o que toda mãe faz.

- E a Senhora tem feito isso muito bem, mãe. – Carlos diz de boca cheia – Agora eu preciso desligar, vou tomar uma ducha e ver um pouco de TV. Te amo mãe, manda um abraço pro meu pai.

- Também te amo querido. Pode deixar. Boa noite.

Carlos desliga e segue até o chuveiro, imaginando se um belo banho frio vai tirar Ada de sua cabeça, e se o banho não conseguir fazer com que ele a esqueça, então voltará a procurá-la.

***

“Nada como estar em casa” é o pensamento de Ada, mas não é bem assim que ela se sente. Assim que entra tira o sobretudo e o larga sobre uma cadeira, segue até seu quarto e se joga na cama.

- Por que ele tem que ser tão idiota e insistente? – Ela se pergunta em voz alta olhando para o teto cheio de estrelas fluorescentes.

Ada abraça o travesseiro, em sua mente relembra os minutos preciosos que acabara de ter, Carlos era realmente lindo e atraente, era inteligente – pelo menos aparentava ser – e estava visivelmente interessado nela. Mas e ela? Estava mesmo se interessando por ele? Só conversaram por algumas horas, seria possível se interessar por ele?

Não! Definitivamente não! Para Ada não importava se ela estava ou não tendo algum interesse em Carlos, isso simplesmente não poderia acontecer e ponto final. Essa era a última palavra, era a sua decisão final.


A moça se levantou da cama e seguiu até o banheiro, talvez um bom banho frio a ajudasse a por as idéias em ordem, e se não ajudasse ela fingiria que funcionou e esqueceria do rosto de Carlos, e de qualquer sentimento que talvez estivesse tentando brotar. Ela não podia ter alguém, e não teria.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escreva pra gente o que achou deste post!
Sua opinião é muito importante para melhorarmos nossos textos!