- É exatamente por eu gostar que a gente não vai mais se ver. – Disse e
então acertou a chave, virando-a e abrindo o portão.
Carlos sorriu, por um lado estava enormemente aliviado, por outro estava
mais enormemente ainda confuso.
- Eu não entendi...
Ada virou-se para o rapaz uma última vez, estava séria e decidida.
- Você não quer e, mesmo que queira, não merece alguém como eu na sua
vida. Então vou te poupar desse grande problema. – Disse, então tentou entrar
no pátio do prédio, mas a mão de Carlos pousou no portão, impedindo-a de
entrar.
- Acho que isso é uma escolha minha. – Carlos também estava sério e
decidido agora.
- E minha também. E escolho não. Boa noite Carlos. – Disse Ada e então
entrou, trancando o portão em seguida.
Carlos permaneceu em pé, ao lado do portão por mais algum tempo, estava
tentando entender o que havia acontecido. O café havia rolado bem ou não
afinal? Por que Ada estava fugindo dele? Por que ele tinha a sensação de que
havia algo maior nisso tudo? Tantas e tantas perguntas... Carlos finalmente
entrou em seu carro e seguiu para sua própria casa, precisar esfriar as idéias.
Do outro lado do portão Ada estava com o coração a mil, os olhos
vermelhos segurando as lágrimas, o sentimento de perda, a decepção... Ela sabia
que não podia ter uma vida normal, nem um namorado e nem uma família. Já que
era assim, então melhor não ferir ninguém por conta de seu problema, sua
condição, e fora perda de tempo e maldade ter dado ao rapaz a mísera esperança
de que poderia haver qualquer coisa...
A garota se agarrou mais ao sobretudo e seguiu até as escadas, precisava
de um bom banho quente e um filme horrível para melhorar um pouco. Sim, talvez
uma dose da sua vida cotidiana insuportável a fizesse bem nesse momento.
***
Carlos morava em um prédio grande, onde também residiam seus pais e um
tio por parte da família de sua mãe. O apartamento do rapaz não era muito
grande, mas bem confortável.
Assim que Carlos chega seu celular toca. Ele atende e do outro lado da
linha está sua mãe.
- Fala mãe, o que a Senhora quer
agora? – O rapaz diz enquanto se joga no sofá.
- Você comeu alguma coisa hoje? Ví
que passou o dia todo fora, e você sabe que não pode ficar sem comer nada.
Estava falando com seu pai hoje, e ele também acha que...
- Mãe, por favor! Eu sei me cuidar! Já o suficiente que a Senhora e o
meu pai estejam morando no mesmo prédio que eu. – Carlos falava num tom sério e
decisivo. Levantou-se e foi até a cozinha checar a geladeira - Eu já disse e
repito, não vou voltar a morar com vocês, não importa quantas vezes me peça, e
pare de por o meu pai nisso, sei muito bem que a interessada nisso é a Senhora.
Ele já me disse que por ele tudo bem eu me virar. – Carlos encontrou um
refratário com um pedaço de pizza, tirou-o da geladeira e o enfiou no
microondas.
- Não fale assim com a sua mãe...
E seu pai não sabe o que diz. E se você tiver uma recaída, e se tiver uma crise
quando não houver ninguém por perto?! Eu jamais me perdoaria se...
- Mãe, eu vou ficar bem. – Disse retirando o refratário do microondas e
colocando sobre a bancada – A Senhora e o meu pai não vão viver pra sempre,
então preciso aprender agora a me virar, enquanto ainda posso contar com vocês.
– Pegou o pedaço da pizza quente com um guardanapo de papel para não queimar
os dedos e começou a comer.
- Eu sei, eu sei – Carlos ouve sua
mãe suspirar do outro lado da linha – Eu só quero me certificar de que você vai
ficar bem. É isso o que toda mãe faz.
- E a Senhora tem feito isso muito bem, mãe. – Carlos diz de boca cheia
– Agora eu preciso desligar, vou tomar uma ducha e ver um pouco de TV. Te amo
mãe, manda um abraço pro meu pai.
- Também te amo querido. Pode
deixar. Boa noite.
Carlos desliga e segue até o chuveiro, imaginando se um belo banho frio
vai tirar Ada de sua cabeça, e se o banho não conseguir fazer com que ele a
esqueça, então voltará a procurá-la.
***
“Nada como estar em casa” é o pensamento de Ada, mas não é bem assim que
ela se sente. Assim que entra tira o sobretudo e o larga sobre uma cadeira,
segue até seu quarto e se joga na cama.
- Por que ele tem que ser tão idiota e insistente? – Ela se pergunta em
voz alta olhando para o teto cheio de estrelas fluorescentes.
Ada abraça o travesseiro, em sua mente relembra os minutos preciosos que
acabara de ter, Carlos era realmente lindo e atraente, era inteligente – pelo
menos aparentava ser – e estava visivelmente interessado nela. Mas e ela?
Estava mesmo se interessando por ele? Só conversaram por algumas horas, seria
possível se interessar por ele?
Não! Definitivamente não! Para Ada não importava se ela estava ou não
tendo algum interesse em Carlos, isso simplesmente não poderia acontecer e
ponto final. Essa era a última palavra, era a sua decisão final.
A moça se levantou da cama e seguiu até o banheiro, talvez um bom banho
frio a ajudasse a por as idéias em ordem, e se não ajudasse ela fingiria que
funcionou e esqueceria do rosto de Carlos, e de qualquer sentimento que talvez
estivesse tentando brotar. Ela não podia ter alguém, e não teria.

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