- Cérebro? – Perguntou Ada segurando sua xícara com as duas mãos, na
inútil tentativa de esquentá-las.
O Sol já havia sumido e o céu que antes era de um azul espetacular
estava começando a enegrecer revelando uma ou outra estrela. A Lua já havia
despontado sobre o lago. De acordo com o calendário Lunar, esta semana era
Crescente, portanto a noite não seria escura como as anteriores, isso fazia Ada
relaxar – ela não gostava do escuro.
Carlos vestiu o casaco que até então trazia pendurado na mão esquerda;
Ada nem o havia notado até então.
- Quando minha mãe estava com vinte e quatro semanas eu fui
diagnosticado com anencefalia, uma
doença que caracteriza ausência de cérebro ou um tamanho de cérebro bem
reduzido. O meu foi o segundo caso, cérebro bem menor que o normal. Uma criança
com anencefalia não tem chances de
sobreviver - ou nasce morta ou morre nos primeiros dias de vida. Mas eu nasci
vivo e não morri – Carlos riu – pelo menos não ainda, e não como os médicos
disseram que aconteceria.
Ada correspondeu ao sorriso da forma mais carinhosa que pôde. Ela sabia
o quanto podia ferir o fato de uma pessoa ser desacreditada por um médico,
alguém que normalmente salva
vidas.
- Eu era exatamente como uma criança retardada. Não andava, não comia
sozinho, não falava... Comecei a entender o que as pessoas falavam quando já
tinha uns dez ou onze anos. Aprendi a falar com treze e só consegui andar com
dezenove. Minha família atribui isso tudo a Deus, como se fosse um milagre. Não
que eu não acredite em Deus, e não que eu não acredite em milagres... Acontece
que eu acho que a ciência pode me ajudar e entender o que aconteceu e o que
ainda acontece comigo...
Ada permaneceu em silêncio. Queria deixar Carlos à vontade para contar
tudo o que ele sentisse necessidade de dividir com ela. Não era como se fossem
super amigos ou namorados, mas compartilhavam de certa forma a mesma dor, a
mesma incerteza, os mesmos medos...