Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Lágrimas de Sangue


Faz quase um mês que perdi meu irmão... E é tão difícil falar sobre isso que eu decidi escrever...

Se tem algo que eu aprendi sobre o luto é que ele nunca acaba. A vida segue por obrigação – seu trabalho, seus amigos, seus familiares, sua rotina. No fim das contas a gente acaba aprendendo a conviver com a dor - não que ela doa menos, mas com o tempo ela tende a se tornar mais suportável... Você se acostuma com ela de tal forma que ela passa fazer parte de você.

Na maior parte do dia eu finjo que não sinto nada. Eu sorrio, eu brinco, eu converso... Mas em alguns momentos eu sumo, desapareço, é como se só o meu corpo estivesse ali – a minha cabeça maluca me faz voltar ao hospital, me faz rever a cena dele deitado na maca, entubado, com a respiração forçada e aquela maldita máquina, apitando, sussurrando que ele está indo embora, que ele está partindo e que não tem nada que eu ou qualquer pessoa no mundo possa fazer para impedir que ele morra.

De repente eu volto, disperso o pensamento, procuro voltar ao assunto, tento agir normalmente. Na maioria das vezes funciona, mas não sem alguém dizer algo do tipo “ela vive no mundo da lua” – como eu gostaria que fosse verdade...

Eu descobri que ninguém está preparado para a morte. Nem quem morre, nem quem sofre por quem morreu. Meu irmão era saudável, se alimentava bem, raramente ficava doente, ne mesmo a famosa catapora ele teve quando era criança. Mas quando chegou a hora, ele simplesmente partiu, sem uma despedida, sem nem entender o que estava acontecendo.

Descobri também que não existe uma forma fácil de passar pela perda, principalmente quando é você quem tem que preparar o velório e o enterro. É uma burocracia enorme, um leva e trás de documentação, um descaso com quem está sofrendo e sem saber o que fazer – se chora, se corre com tudo, se entra em desespero. O pior de tudo foi ouvir do escrivão que a morte do meu irmão – que ocorreu dentro da emergência do hospital, depois de 2 dias internado – foi uma morte suspeita. Como se a dor da perda já não fosse o suficiente.

Às vezes eu choro no banho, deixo o barulho do chuveiro abafar os soluços. Já chorei no ônibus, indo embora pra casa. Ainda não consigo falar dele sem chorar, por isso eu evito. Fui olhar os álbuns de foto de quando éramos crianças outro dia, tive que parar, eu estava na casa da minha mãe e não queria chorar na frente dela – foi ela quem perdeu um filho pela segunda vez, nem consigo imaginar o tamanho da dor dela, mal suporto a minha...

Eu perdi mais um irmão... Às vezes eu tento entender o que isso significa, porque parece tão irreal, tão falso... Tem horas que não consigo aceitar, imagino que é só uma brincadeira de mau gosto e a qualquer momento ele vai aparecer no quintal tirando sarro, como ele fazia quando a gente era criança.

Já faz dez anos e ainda tenho a sensação de que o Erick vai entrar pela porta da sala, o passo apertado de quem tem pressa, pedindo para desocupar o banheiro porque ele quer tomar banho pra se arrumar e sair. E agora também tenho a sensação de que vou ver o Johnny sentado na frente de casa, conversando, rindo, me perguntando se posso dar uma carona para ele ir para o centro da cidade.

Meu Deus eu perdi mais um irmão e isso dói tanto, tanto, que eu não sei se consigo suportar...