Mamãe
não apareceu. Tudo de que eu precisava era me aninhar em seu colo e me sentir
desaparecer. Sei que ela, mais do que eu, desejava vir me ver, mas estamos
ambas sendo vigiadas. Jamais me perdoaria se algo acontecesse à mamãe por minha
causa.
Controlei
meu impulso de quebrar tudo a minha frente. Depois do nojo e das lágrimas fui
consumida pelo ódio. Maurice nunca havia se comportado assim comigo antes, o
que me faz imaginar que ele é exatamente como se parece: um lobo em pele de cordeiro.
Meu único problema é ele ser um lobo rico, pois se não o fosse meu pai jamais
concederia minha mão a ele, mesmo que fosse para me castigar por desobediência.
Nem
sei o que pensar a respeito de meu pai. Ele está literalmente me vendendo para
Maurice. Em parte para me punir e em grande parte para se beneficiar. Sei que
os negócios da família estão indo de mal a pior, mas isso jamais justificará
seus atos.
Não
me lembro de ter sentado em minha cama. Me jogo para trás, me desmanchando no
colchão, desejando afundar até sumir como uma gota d’água em um dia quente de
verão.
A
casa está tão quieta que posso ouvir os empregados conversando no corredor.
Ouço passos pesados e alguém destrancando a porta de meu quarto.
-
O Conde pede que a senhorita desça imediatamente.
É
aquela empregadazinha nojenta e arrogante de novo. Só agora percebo o quão bom
é meu autocontrole, porque acabo de me imaginar jogando-a escada a baixo.
-
Diga que estou indisposta. – Tento parece doente sabendo intimamente que não
vai funcionar.
-
O Conde exige a sua presença, caso contrário subirá pessoalmente para buscá-la.
Não
consigo não olhar para ela com cara de assassina. Na verdade, seria uma boa
desculpa para não me casar com Maurice – nenhum homem desejaria se casar com
uma assassina.
Uso
toda a minha boa vontade restante e me levanto. Lanço um olhar sínico para ela
e passo pela porta. A cada degrau sinto minhas pernas adormecerem, tento pensar
em Michel para conseguir forças, mas isso só me faz ficar com mais vontade de
chorar.
Ao
chegar ao salão onde estava antes vejo mamãe à direita de meu pai, e a sua
esquerda está Maurice, tentando pôr a camisa amarrotada dentro das calças.
Minha vontade de chorar multiplica e meu estômago revira. Tento parecer
indiferente a tudo o que aconteceu a pouco, mas é muito difícil.
-
Desculpem por subir tão repentinamente. Não estava me sentindo bem. – Digo
olhando para mamãe, tentando não olhar de forma alguma para Maurice, que está
me devorando com os olhos.
Maurice
se aproxima e estende a mão. Seu olhar é... Estranho! Ele me olha como se
desejasse pedir desculpas, mas no fundo algo me diz para não confiar nele.
Hesito, mas acabo aceitando sua mão. Todos nos dirigimos até o grande sofá bege
e nos sentamos – mamãe, meu pai, Maurice e eu.
Percebo
que meu pai está com um meio sorriso, e isso me
aterroriza. Não que a felicidade dele me desagrade, mas ela me faz mal, isso
porque ele só está feliz quando me faz infeliz. Sinto minhas mãos tremerem e
suarem frio.
-
Devo dizer que estou um tanto desgostoso pelo rumo que as coisas tomaram. - Diz
meu pai cruzando as mãos sobre o colo e olhando em minha direção. Ha algo no
jeito como ele está me olhando que me deixa desconfortável - Sei que os jovens
de hoje são menos prudentes e mais ansiosos, mas eu esperava mais controle
vindo de você filha.
Meu
olhar de surpresa não surpreende mamãe, que está evitando me olhar diretamente.
Começo a ficar nervosa com o rumo dessa conversa, tenho a impressão de que nada
de bom sairá da boca de meu pai agora.
-
E vindo do Senhor, meu caro amigo Maurice. - Ele conclui dirigindo o olhar para
a criatura nojenta sentada ao meu lado.
A
cada segundo que passo ao lado deste homem, mais vontade de vomitar e de bater
nele eu sinto. Neste momento tudo o que eu queria era não me comportar como uma
dama.
Maurice
olha para meu pai como se estivesse... Envergonhado! Não posso acreditar
nisso... Por Deus! Eu é que estou envergonhada pelo que ele fez a pouco! Mas o
que está havendo aqui afinal?! Como ele consegue ser tão teatral assim?!
-
Sinto pelo que aconteceu Senhor Chalard.
- Maurice está mais cortês do que o comum, e isso está me deixando ansiosa. Ele
volta a ajeitar a camisa, então amassada - Assumo total responsabilidade. Por
tanto, para reparar meu erro desejo adiantar o casamento com a sua filha... -
Então ele me olha - Para amanhã.
Não
consigo me lembrar de nada após isso, não sei se pelo choque, desespero, falta
de sono ou por não estar comendo devidamente - eu desmaiei. O pouco que me
lembro foi de ouvir mamãe gritar meu nome... Um alvoroço de criados correndo
pela casa buscando água fria... Mamãe me abraçando e ordenando que chamassem um
médico... Os protestos do meu pai... Então Maurice me pegou nos braços e me
levou para o quarto. Depois me lembro de alguns borrões e finalmente a
escuridão total.
Não
faço ideia de quanto tempo se passou comigo inconsciente, sei que quando
acordei já estava em meu quarto, um pano úmido sobre a minha testa, uma
camisola e debaixo dos cobertores. Mamãe estava deitada ao meu lado, uma mão
repousava suave sobre a minha e a outra se ocupava em trocar os panos da minha
testa. Desejava permanecer ali para sempre, aninhada em seus braços, sentindo
seu cheiro tão familiar, ouvindo as batidas bem ritmadas de seu coração bondoso
que me acalmavam, mas eu precisava saber... Se fora sonho... Ou pesadelo...
Então me esforcei para abrir os olhos.
-
Mamãe... - Eu chamei quase sem voz e ela me abraçou.
-
Shh - Ela fez - Não diga nada querida. Vamos aproveitar essa brecha. Finja que
ainda dorme. - Ela sussurrou para mim.
A
dúvida se findou: não era sonho, era um maldito pesadelo. De repente fui
inundada pelo desespero e o medo. As últimas palavras de Maurice ecoavam em
minha mente, "... Adiantar o casamento
com a sua filha para amanhã". Ouvir isso foi como arrancar todas as minhas
esperanças e atirá-las ao mar. Me agarrei ao vestido de mamãe e me permiti
afundar em seus braços. Se eu pudesse de algum modo fazer como Julieta e dormir
o sono dos mortos, sem de fato estar morta, Deus sabe que eu o faria.
Mais
uma vez veio o silêncio. Passos apressados de um lado para o outro se
misturavam a vozes alteradas vindas do corredor.
- No máximo em dois
dias! Não irei permitir que se demore mais! - Disse uma voz.
Mamãe
me abraçou mais forte. Senti suas lágrimas mornas caírem sobre meus olhos, uma
após a outra, se misturando lentamente com as que brotavam em meus olhos. Fiquei
imaginando quantas outras noites ela não deve ter passado derramando estas
mesmas lágrimas silenciosas, por mim e por seu casamento infeliz.
Então
mais alguns passos pesados, mais portas se abrindo e fechando, mais vozes
dizendo coisas que não compreendo, mais lágrimas molhando o meu rosto e o de
mamãe, e então eu finalmente adormeci.
***