Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

-- Angelique - Capítulo V: A Proposta --

Mamãe não apareceu. Tudo de que eu precisava era me aninhar em seu colo e me sentir desaparecer. Sei que ela, mais do que eu, desejava vir me ver, mas estamos ambas sendo vigiadas. Jamais me perdoaria se algo acontecesse à mamãe por minha causa.

Controlei meu impulso de quebrar tudo a minha frente. Depois do nojo e das lágrimas fui consumida pelo ódio. Maurice nunca havia se comportado assim comigo antes, o que me faz imaginar que ele é exatamente como se parece: um lobo em pele de cordeiro. Meu único problema é ele ser um lobo rico, pois se não o fosse meu pai jamais concederia minha mão a ele, mesmo que fosse para me castigar por desobediência.

Nem sei o que pensar a respeito de meu pai. Ele está literalmente me vendendo para Maurice. Em parte para me punir e em grande parte para se beneficiar. Sei que os negócios da família estão indo de mal a pior, mas isso jamais justificará seus atos.

Não me lembro de ter sentado em minha cama. Me jogo para trás, me desmanchando no colchão, desejando afundar até sumir como uma gota d’água em um dia quente de verão.

A casa está tão quieta que posso ouvir os empregados conversando no corredor. Ouço passos pesados e alguém destrancando a porta de meu quarto.

- O Conde pede que a senhorita desça imediatamente.

É aquela empregadazinha nojenta e arrogante de novo. Só agora percebo o quão bom é meu autocontrole, porque acabo de me imaginar jogando-a escada a baixo.

- Diga que estou indisposta. – Tento parece doente sabendo intimamente que não vai funcionar.

- O Conde exige a sua presença, caso contrário subirá pessoalmente para buscá-la.

Não consigo não olhar para ela com cara de assassina. Na verdade, seria uma boa desculpa para não me casar com Maurice – nenhum homem desejaria se casar com uma assassina.

Uso toda a minha boa vontade restante e me levanto. Lanço um olhar sínico para ela e passo pela porta. A cada degrau sinto minhas pernas adormecerem, tento pensar em Michel para conseguir forças, mas isso só me faz ficar com mais vontade de chorar.

Ao chegar ao salão onde estava antes vejo mamãe à direita de meu pai, e a sua esquerda está Maurice, tentando pôr a camisa amarrotada dentro das calças. Minha vontade de chorar multiplica e meu estômago revira. Tento parecer indiferente a tudo o que aconteceu a pouco, mas é muito difícil.

- Desculpem por subir tão repentinamente. Não estava me sentindo bem. – Digo olhando para mamãe, tentando não olhar de forma alguma para Maurice, que está me devorando com os olhos.

Maurice se aproxima e estende a mão. Seu olhar é... Estranho! Ele me olha como se desejasse pedir desculpas, mas no fundo algo me diz para não confiar nele. Hesito, mas acabo aceitando sua mão. Todos nos dirigimos até o grande sofá bege e nos sentamos – mamãe, meu pai, Maurice e eu.

Percebo que meu pai está com um meio sorriso, e isso me aterroriza. Não que a felicidade dele me desagrade, mas ela me faz mal, isso porque ele só está feliz quando me faz infeliz. Sinto minhas mãos tremerem e suarem frio.

- Devo dizer que estou um tanto desgostoso pelo rumo que as coisas tomaram. - Diz meu pai cruzando as mãos sobre o colo e olhando em minha direção. Ha algo no jeito como ele está me olhando que me deixa desconfortável - Sei que os jovens de hoje são menos prudentes e mais ansiosos, mas eu esperava mais controle vindo de você filha.

Meu olhar de surpresa não surpreende mamãe, que está evitando me olhar diretamente. Começo a ficar nervosa com o rumo dessa conversa, tenho a impressão de que nada de bom sairá da boca de meu pai agora.

- E vindo do Senhor, meu caro amigo Maurice. - Ele conclui dirigindo o olhar para a criatura nojenta sentada ao meu lado.

A cada segundo que passo ao lado deste homem, mais vontade de vomitar e de bater nele eu sinto. Neste momento tudo o que eu queria era não me comportar como uma dama.

Maurice olha para meu pai como se estivesse... Envergonhado! Não posso acreditar nisso... Por Deus! Eu é que estou envergonhada pelo que ele fez a pouco! Mas o que está havendo aqui afinal?! Como ele consegue ser tão teatral assim?!

- Sinto pelo que aconteceu  Senhor Chalard. - Maurice está mais cortês do que o comum, e isso está me deixando ansiosa. Ele volta a ajeitar a camisa, então amassada - Assumo total responsabilidade. Por tanto, para reparar meu erro desejo adiantar o casamento com a sua filha... - Então ele me olha - Para amanhã.

Não consigo me lembrar de nada após isso, não sei se pelo choque, desespero, falta de sono ou por não estar comendo devidamente - eu desmaiei. O pouco que me lembro foi de ouvir mamãe gritar meu nome... Um alvoroço de criados correndo pela casa buscando água fria... Mamãe me abraçando e ordenando que chamassem um médico... Os protestos do meu pai... Então Maurice me pegou nos braços e me levou para o quarto. Depois me lembro de alguns borrões e finalmente a escuridão total.

Não faço ideia de quanto tempo se passou comigo inconsciente, sei que quando acordei já estava em meu quarto, um pano úmido sobre a minha testa, uma camisola e debaixo dos cobertores. Mamãe estava deitada ao meu lado, uma mão repousava suave sobre a minha e a outra se ocupava em trocar os panos da minha testa. Desejava permanecer ali para sempre, aninhada em seus braços, sentindo seu cheiro tão familiar, ouvindo as batidas bem ritmadas de seu coração bondoso que me acalmavam, mas eu precisava saber... Se fora sonho... Ou pesadelo... Então me esforcei para abrir os olhos.

- Mamãe... - Eu chamei quase sem voz e ela me abraçou.

- Shh - Ela fez - Não diga nada querida. Vamos aproveitar essa brecha. Finja que ainda  dorme. - Ela sussurrou para mim.

A dúvida se findou: não era sonho, era um maldito pesadelo. De repente fui inundada pelo desespero e o medo. As últimas palavras de Maurice ecoavam em minha mente, "... Adiantar  o casamento com a sua filha para amanhã". Ouvir isso foi como arrancar todas as minhas esperanças e atirá-las ao mar. Me agarrei ao vestido de mamãe e me permiti afundar em seus braços. Se eu pudesse de algum modo fazer como Julieta e dormir o sono dos mortos, sem de fato estar morta, Deus sabe que eu o faria.

Mais uma vez veio o silêncio. Passos apressados de um lado para o outro se misturavam a vozes alteradas vindas do corredor.

- No máximo em dois dias! Não irei permitir que se demore mais! - Disse uma voz.

Mamãe me abraçou mais forte. Senti suas lágrimas mornas caírem sobre meus olhos, uma após a outra, se misturando lentamente com as que brotavam em meus olhos. Fiquei imaginando quantas outras noites ela não deve ter passado derramando estas mesmas lágrimas silenciosas, por mim e por seu casamento infeliz.


Então mais alguns passos pesados, mais portas se abrindo e fechando, mais vozes dizendo coisas que não compreendo, mais lágrimas molhando o meu rosto e o de mamãe, e então eu finalmente adormeci.





***

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escreva pra gente o que achou deste post!
Sua opinião é muito importante para melhorarmos nossos textos!