Faz quase um
mês que perdi meu irmão... E é tão difícil falar sobre isso que eu decidi
escrever...
Se tem algo que
eu aprendi sobre o luto é que ele nunca acaba. A vida segue por obrigação – seu
trabalho, seus amigos, seus familiares, sua rotina. No fim das contas a gente acaba aprendendo a conviver com a dor - não que ela doa menos, mas com o tempo ela tende a se tornar mais suportável... Você se acostuma com ela de tal forma que ela passa fazer parte de você.
Na maior parte
do dia eu finjo que não sinto nada. Eu sorrio, eu brinco, eu converso... Mas em
alguns momentos eu sumo, desapareço, é como se só o meu corpo estivesse ali – a
minha cabeça maluca me faz voltar ao hospital, me faz rever a cena dele deitado
na maca, entubado, com a respiração forçada e aquela maldita máquina, apitando,
sussurrando que ele está indo embora, que ele está partindo e que não tem nada
que eu ou qualquer pessoa no mundo possa fazer para impedir que ele morra.
De repente eu
volto, disperso o pensamento, procuro voltar ao assunto, tento agir
normalmente. Na maioria das vezes funciona, mas não sem alguém dizer algo do
tipo “ela vive no mundo da lua” – como eu gostaria que fosse verdade...
Eu descobri que
ninguém está preparado para a morte. Nem quem morre, nem quem sofre por quem
morreu. Meu irmão era saudável, se alimentava bem, raramente ficava doente, ne
mesmo a famosa catapora ele teve quando era criança. Mas quando chegou a hora,
ele simplesmente partiu, sem uma despedida, sem nem entender o que estava
acontecendo.
Descobri também
que não existe uma forma fácil de passar pela perda, principalmente quando é
você quem tem que preparar o velório e o enterro. É uma burocracia enorme, um
leva e trás de documentação, um descaso com quem está sofrendo e sem saber o
que fazer – se chora, se corre com tudo, se entra em desespero. O pior de tudo
foi ouvir do escrivão que a morte do meu irmão – que ocorreu dentro da emergência
do hospital, depois de 2 dias internado – foi uma morte suspeita. Como se a dor
da perda já não fosse o suficiente.
Às vezes eu choro
no banho, deixo o barulho do chuveiro abafar os soluços. Já chorei no ônibus,
indo embora pra casa. Ainda não consigo falar dele sem chorar, por isso eu
evito. Fui olhar os álbuns de foto de quando éramos crianças outro dia, tive
que parar, eu estava na casa da minha mãe e não queria chorar na frente dela –
foi ela quem perdeu um filho pela segunda vez, nem consigo imaginar o tamanho
da dor dela, mal suporto a minha...
Eu perdi mais
um irmão... Às vezes eu tento entender o que isso significa, porque parece tão
irreal, tão falso... Tem horas que não consigo aceitar, imagino que é só uma
brincadeira de mau gosto e a qualquer momento ele vai aparecer no quintal tirando
sarro, como ele fazia quando a gente era criança.
Já faz dez anos
e ainda tenho a sensação de que o Erick vai entrar pela porta da sala, o passo
apertado de quem tem pressa, pedindo para desocupar o banheiro porque ele quer tomar
banho pra se arrumar e sair. E agora também tenho a sensação de que vou ver o
Johnny sentado na frente de casa, conversando, rindo, me perguntando se posso dar
uma carona para ele ir para o centro da cidade.
Meu Deus eu
perdi mais um irmão e isso dói tanto, tanto, que eu não sei se consigo
suportar...
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