Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 6 de julho de 2015

-- INSOLITUM - Praia dos Anjos: Parte I

- Cérebro? – Perguntou Ada segurando sua xícara com as duas mãos, na inútil tentativa de esquentá-las.

O Sol já havia sumido e o céu que antes era de um azul espetacular estava começando a enegrecer revelando uma ou outra estrela. A Lua já havia despontado sobre o lago. De acordo com o calendário Lunar, esta semana era Crescente, portanto a noite não seria escura como as anteriores, isso fazia Ada relaxar – ela não gostava do escuro.

Carlos vestiu o casaco que até então trazia pendurado na mão esquerda; Ada nem o havia notado até então.

- Quando minha mãe estava com vinte e quatro semanas eu fui diagnosticado com anencefalia, uma doença que caracteriza ausência de cérebro ou um tamanho de cérebro bem reduzido. O meu foi o segundo caso, cérebro bem menor que o normal. Uma criança com anencefalia não tem chances de sobreviver - ou nasce morta ou morre nos primeiros dias de vida. Mas eu nasci vivo e não morri – Carlos riu – pelo menos não ainda, e não como os médicos disseram que aconteceria.

Ada correspondeu ao sorriso da forma mais carinhosa que pôde. Ela sabia o quanto podia ferir o fato de uma pessoa ser desacreditada por um médico, alguém que normalmente salva vidas. 

- Eu era exatamente como uma criança retardada. Não andava, não comia sozinho, não falava... Comecei a entender o que as pessoas falavam quando já tinha uns dez ou onze anos. Aprendi a falar com treze e só consegui andar com dezenove. Minha família atribui isso tudo a Deus, como se fosse um milagre. Não que eu não acredite em Deus, e não que eu não acredite em milagres... Acontece que eu acho que a ciência pode me ajudar e entender o que aconteceu e o que ainda acontece comigo...

Ada permaneceu em silêncio. Queria deixar Carlos à vontade para contar tudo o que ele sentisse necessidade de dividir com ela. Não era como se fossem super amigos ou namorados, mas compartilhavam de certa forma a mesma dor, a mesma incerteza, os mesmos medos...


- Quando comecei a falar minha mãe me levou em um médico. Sabe como as mães são: sempre cheias de esperança e tudo mais. O médico disse que meu cérebro havia crescido 20% desde que eu nasci. Ele não soube explicar o motivo e nem se continuaria a crescer.

- Foi o suficiente para a sua mãe crer que era um milagre não é? – Indagou Ada olhando fixamente para Carlos.

Carlos retribuiu o olhar um tanto tímido e assentiu com a cabeça.

- Daí por diante foi sempre a mesma coisa: cada conquista minha resultava em inúmeros exames, sempre comprovando um crescimento mínimo do meu cérebro, sempre enchendo a família de esperanças e os bolsos dos médicos de dinheir...

- Mathias não é assim. – Ada cortou Carlos no fim da frase, ou no meio. Ela não sabia muito bem se ele iria dizer algo mais, porém se fosse um complemento do que estava prestes a dizer, ela preferia não ouvir.

Carlos silenciou. Não ousaria interromper Ada naquele momento. Ela não estava com uma expressão muito boa, e pela sua experiência com mulheres e, principalmente, baixinhas, ele sabia que Ada deveria ter ficado muito irritada com o que ele havia acabado de dizer, ou pelo menos tentado dizer.

- Mathias não é assim. Ele não é assim. – Ada segurava a xícara, agora vazia, com tremenda força – Mathias é um homem bom, generoso. Jamais tiraria dinheiro de alguém sem um propósito muito justo.

- Desculpe Ada, mas não está dizendo isso só porque ele é seu amigo? A atendente me disse que ele é como se fosse seu pai...

Carlos empalideceu. Não queria ter dito aquelas palavras. Porque falar tão rispidamente com a moça? Porque se meter na vida pessoal dela? Ele sabia que não tinha direito algum de fazer essas coisas, mas não conseguiu evitar, e quando se deu conta Ada já estava olhando para ele com a cara de um serial killer que havia acabado de encontrar sua próxima vítima.

- Não Carlos, eu não estou dizendo isso porque Mathias praticamente me criou quando minha mãe não tinha condições pra fazer isso sozinha. Estou dizendo isso porque Mathias banca uma ONG voltada para crianças com tipos raros de cânceres. Estou dizendo isso porque Mathias doa mais da metade dos rendimentos da clinica que você acabou de visitar pra essa ONG. Estou dizendo isso porque Mathias financia o próprio projeto de Pacientes Experimentais sem pedir um centavo para os voluntários do projeto. Mathias estuda e cria os medicamentos com a própria renda, e tudo o que nós temos que fazer é tomá-los e torcer para que funcionem e nos curem. É apenas por isso.

Anna acabou por chegar na melhor hora. Carlos nunca desejou a presença da garçonete tanto quanto naquele momento, tinha a impressão de que se a garçonete não houvesse aparecido naquele instante haveria, em alguns segundos, apenas restos do que ele um dia já teria chamado de corpo.

- Vão querer mais alguma coisa?

Carlos aproveitou a deixa para pedir um pedaço de torta de limão. Ada não enrolou para pedir: algumas torradas com cream cheese. A garçonete anotou os pedidos e se retirou logo em seguida. Carlos sentiu o coração bater na garganta quando ficou sozinho novamente com Ada.

- Desculpe falar nesse tom com você. Não é sua culpa. Pelo que ouvi e percebi você deve ter tido péssimas experiências com médicos fajutos e careiros. É bom que saiba que Mathias é diferente, digo, se for mesmo querer entrar para o Projeto dele.

Ada tentou manter a calma, apesar de estar com vontade de voar no pescoço de Carlos e gritar umas boas verdades em seus ouvidos.

Carlos se ajeitou na cadeira e deu uma olhada ao redor: o café estava praticamente vazio, então olhou no relógio em seu pulso direito e concluiu que o lugar já deveria ter fechado – já passava das oito.

- Caramba já está muito tarde. – Comentou.

Ada olhou no relógio de coruja que carregava pendurado no pescoço e se viu obrigada a concordar.

- Vai procurar Mathias depois da conferência? – Ada estava preocupada com relação a Carlos não procurar Mathias depois – em parte porque ele seria uma descoberta incrível para a ciência e principalmente para Mathias, e em parte também porque havia ficado preocupada com o problema dele, afinal com o cérebro não se brinca.

Anna não demorou muito para voltar com os dois pedidos, Carlos e Ada comeram em total silêncio. Ada sentiu certa hostilidade na postura de Carlos, o rapaz estava visivelmente tenso e pensativo.

Carlos por sua vez estava mais preocupado com o que Ada estava pensando dele do que com a possibilidade de ver Mathias ou não. Talvez a decisão que estava prestes a tomar fosse apenas para agradar Ada.

Carlos se levantou e estendeu a mão para a moça sugerindo que ela se apoiasse nele para levantar, o que Ada fez com expressão neutra, pois parecia mais interessada na resposta do rapaz do que no gesto “cavalheiro”.

- Certamente é a minha intenção. – Ele disse finalmente quebrando a muralha de silêncio que havia se erguido entre os dois.

Ambos seguiram em silêncio até o caixa que ficava logo na entrada do café. Cada um pagou sua conta e ambos saíram do local, permanecendo parados na calçada encarando um ao outro.

- Bem, acho que o nosso café termina aqui. – Disse Ada estendendo a mão para Carlos.

Carlos apertou a mão de Ada e sorriu.

- Na verdade acho que não. Você não me contou qual é a sua doença, então o nosso café vai se estender para outro dia.

- Desculpe Carlos, mas não sou o tipo de garota que vai querer como companhia para outro café. Já fiz muito em topar vir aqui hoje com você – disse apontando o café sweet moon com o queixo enquanto se agarrava mais forte a seu sobretudo – e não estou afim de fazer isso outra vez. Tenha uma boa noite.

Ada deu meia volta e atravessou a rua, agora deserta. Carlos demorou alguns segundos para reagir, não havia entendido bem a atitude da moça, a única coisa que sabia é que não podia deixá-la ir embora daquela forma. Ela o havia enfeitiçado, e o “fora” que havia acabado de receber reforçava a ideia de que ele não podia deixá-la ir.



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