Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

-- INSOLITUM - Praia dos Anjos: Parte II

- Ei! Espere! – Gritou e correu para alcançá-la.

Ada tentou acelerar os passos, sabia que não seria certo permitir que o rapaz se aproximasse dela como ele provavelmente queria.

- Ei! Calma ai! – Disse Carlos puxando Ada pelo braço.

- Ei você! Vai me seguir é? – Ada estava nervosa, mais pelo fato de que nunca havia conversado tanto tempo sozinha com um rapaz, e este rapaz estava correndo atrás dela agora. E talvez também pelo fato de que ela estava começando a se interessar por ele de um modo diferente, um modo que ela não podia permitir.

- Talvez. Você mora há cinco quadras do consultório do Doutor Mathias, e de lá até aqui já foram mais duas quadras, portanto você está bem longe de casa pra ir sozinha. Vem que eu te dou uma carona. – Carlos estendeu a mão para Ada com os olhos brilhando em expectativa.

Ada permaneceu em silêncio por alguns instantes. Sabia que não deveria se aproximar muito de Carlos,mas havia alguma coisa nos olhos do rapaz que a fazia querer testar até onde aquela situação se estenderia.

- Você não vai tentar nada do tipo sequestro ou roubo de órgãos, não é mesmo? - Disse aceitando a mão do rapaz.

Carlos riu e segurou firme a mão de Ada. O sorriso era sincero e cheio de boas – ou más – intenções.

- Prometo que não vou te dopar e te deixar acordar em um quarto velho, sujo e cheio de cobaias humanas. – Ele diz segurando firme a mão de Ada.

***

O carro de Carlos estava estacionado há duas quadras do Café Sweet Monn – um Civic preto e com um adesivo no pára-choque de trás com a inscrição “Seta não é cú, dê sem medo!”.

- Quanta originalidade! – Disse Ada ironicamente ao ver a inscrição.

Carlos riu e desativou o alarme, abrindo a porta do passageiro para Ada e indicando o assento.

Uma vez dentro do carro ambos emudeceram. O espaço mínimo entre ambos fazia o coração, tanto de Carlos quanto de Ada, acelerar. Ada tentou quebrar o gelo perguntando onde Carlos havia conseguido a concha pendurada no retrovisor.

- É uma raridade encontrar uma dessas. – Disse ela tocando a concha delicadamente com a ponta dos dedos.

- É uma praia deserta onde meus pais têm uma casa. Vou pra lá nas minhas férias todo ano pra pensar na vida. Se chama Praia dos Anjos – Disse olhando para Ada discretamente - Encontrei quando estava mergulhando.

Ada amava tudo o que tivesse a ver com o mar, justamente por se tratar da maior paixão de sua vida, a qual ela, talvez, jamais poderia conquistar. Seus olhos brilhavam enquanto admirava a concha espiralada e cheia de pontas.

- Deve ser incrível ver o mar de perto, poder mergulhar e sentir a areia sob seus pés...

Carlos reduziu a velocidade, já estava próximo de onde Ada supostamente morava.

- Você nunca foi à praia? – Perguntou um pouco incrédulo.

Ada negou com a cabeça e então voltou a se encostar ao banco, com olhar perdido no céu que já estava repleto de estrelas. Não era preciso ser um expert para perceber que esse assunto aborrecia Ada, na verdade muitos assuntos a aborreciam, mas este era sem dúvidas o pior deles.

- Pode parar o carro aqui. – Disse ela apontando para um prédio de maios ou menos 10 andares.

Carlos parou rente a guia e desligou o carro, olhando curioso para o prédio.

- Você mora aqui? – Perguntou com um sorriso que dizia “agora sei onde te encontrar”.

- Algum problema com o prédio onde eu moro?- Ada perguntou erguendo uma das sobrancelhas, gesto que Carlos achou uma graça.

- Não, imagine. Só fiquei curioso. – Disse erguendo as mãos num gesto defensivo.
Carlos desceu do carro assim que Ada o fez, então deu meia volta no mesmo e ficou frente a frente com Ada.

- Já pode ir agora. – Disse Ada procurando as chaves dentro do bolso do sobretudo.

Carlos ficou esperando enquanto Ada encontrava as chaves.

- Passo aqui amanhã às sete ou antes? – Disse cruzando os braços sobre o peito.

Ada parou de procurar as chaves e olhou diretamente para Carlos, com uma típica sobrancelha erguida.

- Como é que é? Do que você está falando? – Disse com um sorriso de deboche nos lábios.

- Do nosso café, do que mais eu estaria falando? – Carlos rebateu sem perder tempo, estava decidido a sair com Ada novamente.

Ada alcançou as chaves e as tirou do bolso, tomando-as na mão se dirigiu para o portão do prédio onde morava. Carlos a seguiu.

- Desculpa, mas não vai rolar. A gente não vai se ver de novo. – Disse enquanto tentava deslizar a chave certa na fechadura do portão velho do prédio.

Carlos parou por um momento, tentava encontrar palavras para rebater o que a moça linda a sua frente estava lhe dizendo. Como convencê-la a sair com ele outra vez?

- Você não gosta da minha companhia? – Finalmente perguntou, totalmente confuso e com medo da resposta.


Ada respirou fundo. Como explicar a ele? Como fazê-lo entender? Pensava que havia sido uma tola por ter deixado esse suposto encontro casual e sem importância ter ido tão longe. E agora ela mesma estava envolvida nisso de um jeito que não desejava... Ao menos não podia desejar.


***

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Escreva pra gente o que achou deste post!
Sua opinião é muito importante para melhorarmos nossos textos!