Era uma noite fria e chuvosa, o céu parecia um emaranhado de teias de aranha piscando de vez em vez - tempestade!
Na cama estava ela, transpirando feito uma pedra de gelo sob o sol, ela tremia tanto que por vezes achei que estava convulsionando. Seus cabelos grudavam na testa, no pescoço e nos ombros, os lençóis estavam encharcados pela sétima vez. Chamei a criada para vir trocá-los e apanhei a moça de cabelos negros em meus braços, não pesava quase nada, era tão magra e frágil como uma criança. A coloquei no sofá perto da janela, a qual abri uma fresta para que entrasse um pouco de ar.
A luz dos candelabros a moça tinha uma pele pálida, como dessas jovens que mal tomam sol. Me lembrava a filha de um negociante famoso que evitava o sol a fim de manter a pele o mais alva possível. Algo muito estúpido, creio eu. Até que ponto estas jovens podem chegar por pura vaidade...? Mas esta dama misteriosa era pálida não por falta de sol, em uma das mãos notava-se a marca da ausência de um anel.
O que realmente me preocupava era o ferimento nas costas, que não parecia nada bom, o que já era de se esperar, uma facada não deixa só uma cicatriz enorme, a febre sempre vem antes, e se der azar a morte também.
Eis que ainda não compreendi o que houve, desejo que esta dama misteriosa acorde logo para que possa me dar alguns esclarecimentos, afinal de contas, não é todo dia que alguém enfrenta a morte para me salvar!
Ela tosse e quando dou por mim já estou em seu auxílio, envolvendo-a nos cobertores novamente. A tomo em meus braços mais uma vez e a coloca na cama. Sento-me no sofá perto da porta e recomeço a minha vigília.
Não percebi em que momento peguei no sono, apenas acordei com um estrondo e gotas de chuva sobre mim. Abri meus olhos e vi a janela escancarada, a cama vazia.
Corri feito louco pelos corredores, desci pulando as escadas e quando cheguei na soleira da porta pude ver pelo vidro a silhueta daquela dama misteriosa, sob a chuva forte.
Nem pensei, apenas abri a porta e segui desesperado até ela. Quando a encontrei mal pude ver a cor de seus olhos, ela apenas desmaiou em meus braços. Mais uma vez eu a carregava até o quarto e a eixava sobre cama.
Pedi a criada que trouxesse roupas secas e a vestisse. Tranquei as janelas e a porta assim que a criada saiu. Eu não desejava de modo algum fazer mal à dama, mas precisava de respostas. Esperava sinceramente que o fato de ela ter tentado fugir se desse apenas pela febre, uma alucinação talvez, e não por medo de mim, o de quem quer que seja.
Mais do que respostas, eu precisava que ela sobrevivesse. Nunca ninguém dera a vida por mim, e logo ela, uma total desconhecida, se punha entre uma faca e eu para poupar minha vida. Eu devia a ela a vida que ela salvou e minha eterna gratidão.
Eu estava curioso. Quem seria ela, onde vivia, o que fazia... E por que, uma jovem tão bela, me salvaria? O que estaria ela fazendo naquele cais?!
Percebi que eu a queri viva, não por ela, mas por mim. Eu a queria para mim...
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Escreva pra gente o que achou deste post!
Sua opinião é muito importante para melhorarmos nossos textos!