Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

sexta-feira, 26 de junho de 2015

-- Angelique - Capítulo IV: O Malabarista --


As gêmeas estavam lambendo os dedos melados de algodão doce enquanto caminhávamos até o picadeiro. Entreguei os três bilhetes e entramos uma mais curiosa que a outra.

Dizer que o lugar estava lotado era pouco, acho que os únicos assentos vazios eram os nossos, porque não consegui enxergar nenhum outro. Já havíamos perdido a primeira apresentação, mas mamãe sempre diz que o melhor se guarda para o final.

Pisamos em alguns pés e recebemos alguns resmungos até chegarmos aos nossos assentos. As próximas três apresentações foram maravilhosas, eu particularmente havia amado a trapezista e o homem chama. A quinta apresentação era de um malabarista que dançava sobre uma corda bamba. Não achei nada de muito especial naquilo até ver o rapaz começar a brincar com facas.  Mamãe não pareceu muito entretida, na verdade estava impaciente, olhando as entradas todo o tempo, imagino eu que na procura de papai. Se ele se zangar vai bater nela, e eu terei sido a culpada disso. Mais uma vez agindo sem pensar...

O malabarista parou de brincar com as facas e subiu em um monociclo. Uma bailarina subiu em seus ombros e ele começou a pedalar e dar voltas no picadeiro. Todos na plateia riam e gargalhavam. Eu não achava muita graça naquilo então me abstive de risadas, me concentrando apenas em observar.


A sexta apresentação era a penúltima. Tratava-se de um domador de leões. As gêmeas começaram a reclamar de fome, e para não aborrecer Dona Madeleine eu me ofereci para ir comprar amendoins e pipoca. Obviamente ela agradeceu e me encheu de moedas mais uma vez.

Pisei em mais alguns pés antes de conseguir sair daquele espaço incrivelmente apertado. O rapaz que recebia os bilhetes me entregou uma ficha vermelha, que me garantiria a entrada ao picadeiro se eu voltasse antes do fim do espetáculo.

Segui para a saída e me apressei para chegar até a barraca de pipoca, que era a mais próxima. Comprei e tentei lembrar onde ficava a barraca de amendoins. Lembrei que havia visto uma atrás da tenda do picadeiro, perto do trailer onde os atores trocam de roupa. Dei meia volta e acelerei o passo. Não queria perder a última apresentação.

Assim que avistei a barraca comecei a procurar as moedas que Dona Madeleine havia me dado. Mal percebi uma mão derrubando as moedas que eu contava.

- Veja só o que achei! Moedas jogadas no chão!

Era um rapaz magro e bem mal vestido. Estava sujo e cheirando a bebida barata. Antes que ele pegasse as moedas que derrubou da minha mão coloquei meu pé sobre elas.

- Veja só! Encontrei minhas moedas perdidas!

Sem olhar para ele, e me sentindo a pessoa mais irônica do mundo, me abaixei e peguei as moedas, enfiando-as dentro do vestido.

- Essas moedas são minhas, garota. Devolva-as ou eu as pegarei de você a força.

Bem, isso eu não esperava. Eu poderia tentar correr, mas não chegaria muito longe. Procurei rapidamente por algum adulto, mas não havia nenhum por perto.

- Não, essas moedas são minhas. E acho melhor não tentar tomá-las de mim.

Se eu não podia correr ou brigar deveria pelo menos parecer ameaçadora, a ponto de assustá-lo. Mas é óbvio que não funcionou.

- Você é quem sabe, garota.

Dizendo isso ele se aproximou e tentou enfiar a mão no cinto do meu vestido onde eu havia guardado as moedas. Instintivamente eu o agredi, dando-lhe um tapa que o pegou de surpresa e em cheio.

Recolhi a mão dolorida com espanto. Jamais imaginei que um tapa doeria tanto em mim também.

- A sua...!

Antes que ele pudesse terminar a frase havia outro rapaz, forte e esguio, entre nós dois.

- Acho melhor deixar a moça em paz. Não gostamos de encrenqueiros e trombadinhas aqui no circo.

O rapaz que acertei se virou resmungando e correu sem olhar para trás. Senti um alivio imenso e quase chorei de alegria quando me vi longe daquele ladrãozinho.

- Você está bem?

Quanto me dei conta o rapaz que havia me protegido estava me olhando fixamente. Foi estranho mais senti meu coração acelerar e o rubor tomar conta do meu rosto.

- Sim, sim eu estou bem. – Respondi desviando o olhar.

O rapaz me deu o braço e se ofereceu para me levar até o picadeiro. Respondi que precisava comprar amendoins antes e então ele me acompanhou até a barraca.

- Como sabe que estou indo para o picadeiro? – Perguntei enquanto pagava a senhora do carrinho de amendoins.

O rapaz me estendeu o braço novamente e sorriu.

- Porque eu a via lá dentro agora a pouco.

Aceitei seu braço e baixei o rosto, fitando meus pés, pensativa, enquanto caminhávamos até a tenda do picadeiro.

- Como é seu nome, moça?

- Angelique Chalard. E o seu?

Ele sorriu. Seu sorriso era lindo. Seus olhos eram caramelos e seu cabelo cacheado até os ombros. Percebi que eu o estava admirando como se fosse uma pintura.

- Angelique... É um lindo nome. – Ele disse parando em frente à entrada do picadeiro – Até mais, Angelique.

Não tive tempo para insistir em saber seu nome. Quando pensei em fazê-lo uma multidão apareceu atrás de mim - o espetáculo havia terminado. Senti um pisão no meu pé e então vi mamãe acenando – ela, Dona Madeleine e as gêmeas já estavam do lado de fora do picadeiro. Corri até elas e entreguei os saquinhos de pipoca e amendoins às gêmeas.

- Você perdeu a melhor parte do espetáculo, meu amor.

Como sempre mamãe não fazia perguntas, mas demonstrara que havia ficado preocupada.

- Desculpe, eu não estava achando a barraca de amendoins. Só quando estava voltando vi que tinha uma ao lado da tenda.

Dona Madeleine afagou meus cabelos e sorriu agradecendo a gentileza com suas filhas. Demos mais uma volta no circo até que papai e o senhor Mèrgier apareceram, e então fomos para casa.

Papai não quis jantar, pediu que a empregada me levasse algo no quarto e pediu para mamãe subir e ir se deitar. Não questionei, nem mamãe. Fizemos o que papai nos pediu, ele estava visivelmente nervoso e qualquer coisa que disséssemos poderia causar uma briga desnecessária.



Mas não consegui comer ou dormir. Fiquei lembrando os olhos azuis daquele rapaz tão lindo e misterioso... Tentei lembrar se o conhecia de algum lugar, mas certamente não. Ele foi tão gentil e educado comigo... A forma como ele pronunciou meu nome fez meu corpo todo tremer, o modo como sua língua brincou as sílabas e o jeito como se despediu... Fiquei imaginando qual o motivo para essa sensação. Eu certamente não compreendia, mas sabia que queria vê-lo de novo. 


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