As gêmeas estavam lambendo os
dedos melados de algodão doce enquanto caminhávamos até o picadeiro. Entreguei
os três bilhetes e entramos uma mais curiosa que a outra.
Dizer que o lugar estava lotado
era pouco, acho que os únicos assentos vazios eram os nossos, porque não
consegui enxergar nenhum outro. Já havíamos perdido a primeira apresentação,
mas mamãe sempre diz que o melhor se guarda para o final.
Pisamos em alguns pés e
recebemos alguns resmungos até chegarmos aos nossos assentos. As próximas três
apresentações foram maravilhosas, eu particularmente havia amado a trapezista e
o homem chama. A quinta apresentação era de um malabarista que dançava sobre
uma corda bamba. Não achei nada de muito especial naquilo até ver o rapaz
começar a brincar com facas. Mamãe não
pareceu muito entretida, na verdade estava impaciente, olhando as entradas todo
o tempo, imagino eu que na procura de papai. Se ele se zangar vai bater nela, e
eu terei sido a culpada disso. Mais uma vez agindo sem pensar...
O malabarista parou de brincar
com as facas e subiu em um monociclo. Uma bailarina subiu em seus ombros e ele
começou a pedalar e dar voltas no picadeiro. Todos na plateia riam e
gargalhavam. Eu não achava muita graça naquilo então me abstive de risadas, me
concentrando apenas em observar.
A sexta apresentação era a
penúltima. Tratava-se de um domador de leões. As gêmeas começaram a reclamar de
fome, e para não aborrecer Dona Madeleine eu me ofereci para ir comprar
amendoins e pipoca. Obviamente ela agradeceu e me encheu de moedas mais uma
vez.
Pisei em mais alguns pés antes
de conseguir sair daquele espaço incrivelmente apertado. O rapaz que recebia os
bilhetes me entregou uma ficha vermelha, que me garantiria a entrada ao
picadeiro se eu voltasse antes do fim do espetáculo.
Segui para a saída e me
apressei para chegar até a barraca de pipoca, que era a mais próxima. Comprei e
tentei lembrar onde ficava a barraca de amendoins. Lembrei que havia visto uma
atrás da tenda do picadeiro, perto do trailer onde os atores trocam de roupa.
Dei meia volta e acelerei o passo. Não queria perder a última apresentação.
Assim que avistei a barraca
comecei a procurar as moedas que Dona Madeleine havia me dado. Mal percebi uma
mão derrubando as moedas que eu contava.
- Veja só o que achei! Moedas
jogadas no chão!
Era um rapaz magro e bem mal
vestido. Estava sujo e cheirando a bebida barata. Antes que ele pegasse as
moedas que derrubou da minha mão coloquei meu pé sobre elas.
- Veja só! Encontrei minhas
moedas perdidas!
Sem olhar para ele, e me
sentindo a pessoa mais irônica do mundo, me abaixei e peguei as moedas,
enfiando-as dentro do vestido.
- Essas moedas são minhas, garota.
Devolva-as ou eu as pegarei de você a força.
Bem, isso eu não esperava. Eu
poderia tentar correr, mas não chegaria muito longe. Procurei rapidamente por
algum adulto, mas não havia nenhum por perto.
- Não, essas moedas são minhas.
E acho melhor não tentar tomá-las de mim.
Se eu não podia correr ou
brigar deveria pelo menos parecer ameaçadora, a ponto de assustá-lo. Mas é
óbvio que não funcionou.
- Você é quem sabe, garota.
Dizendo isso ele se aproximou e
tentou enfiar a mão no cinto do meu vestido onde eu havia guardado as moedas.
Instintivamente eu o agredi, dando-lhe um tapa que o pegou de surpresa e em
cheio.
Recolhi a mão dolorida com
espanto. Jamais imaginei que um tapa doeria tanto em mim também.
- A sua...!
Antes que ele pudesse terminar
a frase havia outro rapaz, forte e esguio, entre nós dois.
- Acho melhor deixar a moça em
paz. Não gostamos de encrenqueiros e trombadinhas aqui no circo.
O rapaz que acertei se virou
resmungando e correu sem olhar para trás. Senti um alivio imenso e quase chorei
de alegria quando me vi longe daquele ladrãozinho.
- Você está bem?
Quanto me dei conta o rapaz que
havia me protegido estava me olhando fixamente. Foi estranho mais senti meu
coração acelerar e o rubor tomar conta do meu rosto.
- Sim, sim eu estou bem. –
Respondi desviando o olhar.
O rapaz me deu o braço e se
ofereceu para me levar até o picadeiro. Respondi que precisava comprar
amendoins antes e então ele me acompanhou até a barraca.
- Como sabe que estou indo para
o picadeiro? – Perguntei enquanto pagava a senhora do carrinho de amendoins.
O rapaz me estendeu o braço
novamente e sorriu.
- Porque eu a via lá dentro
agora a pouco.
Aceitei seu braço e baixei o
rosto, fitando meus pés, pensativa, enquanto caminhávamos até a tenda do
picadeiro.
- Como é seu nome, moça?
- Angelique Chalard. E o seu?
Ele sorriu. Seu sorriso era
lindo. Seus olhos eram caramelos e seu cabelo cacheado até os ombros. Percebi
que eu o estava admirando como se fosse uma pintura.
- Angelique... É um lindo nome.
– Ele disse parando em frente à entrada do picadeiro – Até mais, Angelique.
Não tive tempo para insistir em
saber seu nome. Quando pensei em fazê-lo uma multidão apareceu atrás de mim - o
espetáculo havia terminado. Senti um pisão no meu pé e então vi mamãe acenando
– ela, Dona Madeleine e as gêmeas já estavam do lado de fora do picadeiro.
Corri até elas e entreguei os saquinhos de pipoca e amendoins às gêmeas.
- Você perdeu a melhor parte do
espetáculo, meu amor.
Como sempre mamãe não fazia
perguntas, mas demonstrara que havia ficado preocupada.
- Desculpe, eu não estava
achando a barraca de amendoins. Só quando estava voltando vi que tinha uma ao
lado da tenda.
Dona Madeleine afagou meus
cabelos e sorriu agradecendo a gentileza com suas filhas. Demos mais uma volta
no circo até que papai e o senhor Mèrgier apareceram, e então fomos para casa.
Papai não quis jantar, pediu
que a empregada me levasse algo no quarto e pediu para mamãe subir e ir se
deitar. Não questionei, nem mamãe. Fizemos o que papai nos pediu, ele estava visivelmente
nervoso e qualquer coisa que disséssemos poderia causar uma briga
desnecessária.
Mas não consegui comer ou
dormir. Fiquei lembrando os olhos azuis daquele rapaz tão lindo e misterioso...
Tentei lembrar se o conhecia de algum lugar, mas certamente não. Ele foi tão
gentil e educado comigo... A forma como ele pronunciou meu nome fez meu corpo
todo tremer, o modo como sua língua brincou as sílabas e o jeito como se despediu... Fiquei imaginando qual o motivo para essa sensação. Eu certamente
não compreendia, mas sabia que queria vê-lo de novo.

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