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Quando você acha que já te aconteceu de tudo, a vida vem te dá um soco no meio
da cara e grita no teu ouvido: “Acorda otário! Ainda posso te foder mais”! ~~
Essa
semana não foi das melhores. Fiz mais
provas do que consegui contar, e estudar pra todas foi realmente um saco. Sem
falar que pra duas eu nem me dei ao trabalho de ver o que ia cair. Passei esses
últimos quinze dias com a cabeça a mil, Luíza quase me deixou no vermelho. Não
sei se ela gosta de mim ou da minha carteira – ou, melhor dizendo - da carteira
dos meus pais, porque afinal são eles quem bancam tudo, com exceção da grana da
faculdade que faço questão de pagar.
Esse
lugar é muito barulhento. Odeio lugares cheios, e Luiza adora. Somos bem
diferentes em vários aspectos. Pensei bem a respeito e, para a minha surpresa,
não fiquei nem um pouco chateado com a minha decisão. Luiza vem demonstrando há
um tempo quais são suas reais intenções e isso facilitou em muito na minha
decisão.
Marquei
de encontrar a Luíza no café do Shopping Boulevard. Apesar de eu odiar, o lugar
é um dos “points” favoritos de Luíza, e o fato de estar sempre cheio – o que
hoje estou adorando – é o que me fez marcar o encontro aqui: com plateia Luíza não vai dar showzinho quando eu jogar a bomba no colo dela. Pois é, ela adora
gritar e discutir, mas odeia chamar a atenção tanto quanto eu – pelo menos
alguma coisa temos em comum a final.
Contra
todas as minhas regras - que dizem pra sentar sempre no fundo, longe dos olhos
curiosos das pessoas - sentei no meio do lugar, na parte onde ficam as mesinhas
individuais. Isso mesmo, mesinhas individuais, não estou a fim de pagar nada
pra ela hoje, nem um café simples.
O
lugar até que é legalzinho. Nunca presto muita atenção quando estou com Luíza porque tenho que ficar de olho no que ela pede, o que me deixa irritado e sem
cabeça pra apreciar o lugar. Tudo é de madeira bem escura, o chão, as mesas e
cadeiras, o bar. Tem uma escada de madeira na lateral da entrada que leva para um
reservado com mais mesas e cadeiras, porém com o luxo de uma TV enorme e uma
mesa de bilhar pra jogar à vontade sem a preocupação das fichas. É, acho que se
for pra ficar no reservado até posso voltar mais algumas vezes.
São
10h45min e Luíza ainda não chegou. O lugar estava vazio quando cheguei, há pelo
menos meia hora atrás, mas agora das 25 mesas pelo menos 18 já estão ocupadas,
incluindo a minha. A música de fundo é um sertanejo universitário horrível. Eu
gosto de sertanejo, mas tem que ser bom, e esse não é.
Fico
imaginando como Luíza vai reagir. Dizer que ela vai ficar arrasada seria
exagero, é evidente que ela não me ama, mas ela vai no mínimo ficar muito puta
por perder tanto tempo se arrumando só pra levar um fora.
Foi
pensar nela pra ela aparecer. Luíza é do tipo “barbie”, cintura fina e seios
grandes. Loira, olhos azuis e lábios finos, sempre com batom vermelho. Nem
preciso dizer que ela sabe se vestir valorizando o corpo cheio de curvas, o que
sempre atrai olhares de todos os lados.
O
salto de Luíza fez um barulho alto no chão de madeira, e os olhares que ela
atraiu a seguiram até ela parar na minha frente.
-
Rafa... Mesa individual? – Luíza me olhou com uma cara do tipo “você é
idiota?”.
Tomei
um gole no chopp que pedi enquanto a esperava. Seria a última conversa
irritante que teríamos e esse pensamento me relaxava.
- Luíza eu vou ser bem direto com você pra não sobrarem dúvidas, tudo bem?
Luíza colocou uma mão na cintura enquanto a outra segurava a bolsa bege ao lado do
corpo.
-
O que foi dessa vez: não vamos pedir nada pra comer? Seus pais não te deram
grana esse mês?
Mais
uma vez o único problema que Luíza enxerga é o financeiro. Isso chega a me dar
nojo.
-
Não. Não tenho problema com dinheiro esse mês.
Tirei
uma nota de dez e coloquei sobre a mesa, embaixo da taça e então me levantei.
-
Nós vamos pra outro lugar? – Luíza nem desconfia do que estou prestes a dizer a
ela. E o pior é que estou começando a ficar com pena dela. Não posso deixar a
pena me impedir de fazer isso.
Fiquei
próximo o suficiente dela. Olhei bem nos olhos dela e tirei a minha aliança do
dedo. É claro que ela não entendeu o gesto de primeira, precisei abrir a mão
dela e colocar a aliança dentro. A aliança já havia perdido o significado há
muito tempo pra mim, já havia se tornado apenas um anel de prata.
-
O que é isso? O que você está fazendo Rafael? – Os olhos de Luíza queimavam em
brasa. Tive a nítida impressão de que ela queria me bater com a bolsa porque
ela cerrou o punho em volta da alça com tanta força que as juntas dos dedos
ficaram brancas.
-
Estou terminando com você. Não quero mais namorar contigo. A gente não combina
mais.
Pronto,
falei! As palavras saíram e junto delas um peso enorme saiu dos meus ombros.
Nunca foi tão boa a sensação de liberdade.
Luíza fechou os olhos lentamente e cerrou a outra mão sobre a aliança que entreguei a
ela. Aposto que ela devia estar tentando quebrar a aliança.
-
Então é pra isso que me chamou aqui? – A voz de Luíza parecia um sussurro.
Naquele instante ela compreendeu o motivo do lugar – nada de showzinho.
-
Exatamente. Pode ficar com o par de alianças, eu não quero. E não precisa
devolver nada e nem me mandar nada do que está no seu AP. Quero encerrar aqui
definitivamente. Sem ligações, sem e-mails, sem nada. Se for pra gente se ver ainda,
apenas na faculdade, e como amigos. É a única coisa que eu peço.
Coloquei
as mãos nos bolsos da blusa e aguardei alguns segundos. Se ela tinha algo pra
dizer, que fosse agora.
-
Por quê?!
Opa!
Isso é um olhar de surpresa? Não acredito! Luíza realmente não esperava por
isso. Dei dois passos e fiquei ao lado dela, de frente para a saída, enquanto
ela fitava a mesa onde eu estava com olhar perdido e furioso.
-
Porque, Luíza, você não me ama, e eu não amo você.
Então
eu saí, decidido a não olhar para trás. Se ela fosse ter um chilique que fosse
longe de mim. Apesar de que eu duvido que ela faria uma cena num lugar público
que ela adora frequentar.
Dei
mais algumas voltas no Shopping só pra esquecer o que havia acontecido. Dei uma
olhada em uma loja que vende artigos esportivos e em uma outra que vende games.
Não comprei nada. Parei de curioso em um estande que vende coisas exotéricas,
como incensos, velas aromáticas, cartas de tarô, bolas de cristal, runas... A
vendedora era uma mulher simpática de seus cinquenta e tantos anos.
-
Interessado em algo em particular meu jovem?
A
voz da mulher era melodiosa e carregada de um sotaque que não consegui
identificar.
-
Não sei... Sorte talvez? Acho que isso é algo que acabamos todos sempre
precisando.
Sorri
e tentei ser gentil. A mulher sorriu de volta e me entregou um baralho grande.
-
Acho que você precisa de algo diferente de sorte. Vamos ver a sua sorte para
ter certeza. Embaralhe as cartas.
-
Desculpe senhora, não estou interessado em comprar nada e menos ainda em ter
uma consulta. Nem acredito nessas coisas. Só parei de curiosidade.
A
mulher sorriu. Sorriu como se fosse minha mãe. Um sorriso daqueles que te
abraça e te diz “está tudo bem”.
-
Relaxe rapaz. Não vou te cobrar nada. Apenas embaralhe sim, esvazie a cabeça de
qualquer problema e embaralhe.
Não
sei dizer o motivo, mas fiz exatamente o que a mulher me pediu, me achando um idiota fazendo isso na frente do todas as dezenas de pessoas que passavam por ali. Tentei não
pensar em nada em quanto embaralhava. Assim que terminei devolvi o baralho.
-
Este é um tarô muito antigo. Foi da mãe da mãe de minha avó. Está na família ha
anos e sempre trás boas respostas às perguntas que ainda não nos fizemos. Irei
distribuí-lo sobre a bancada em uma linha reta. Você passará a mão sobre todas
as cartas e a carta que, de algum modo, parecer diferente a você é a que deve
pegar.
Esperei
a mulher fazer o que havia dito. Sobre o balcão ficava estendido um pano roxo
cheio de estrelas. Então fiz como ela falou, passei a mão sobre todas as
cartas, e o estranho é que uma delas parecia meio pegajosa, grudenta, mas não
me lembro de ter alguma carta grudenta enquanto eu embaralhava. Enfim, eu
retirei a carta...
***

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