Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

sexta-feira, 5 de junho de 2015

-- Marion - Capítulo I: O Otário --

~~ Quando você acha que já te aconteceu de tudo, a vida vem te dá um soco no meio da cara e grita no teu ouvido: “Acorda otário! Ainda posso te foder mais”! ~~

Essa semana não foi das melhores.  Fiz mais provas do que consegui contar, e estudar pra todas foi realmente um saco. Sem falar que pra duas eu nem me dei ao trabalho de ver o que ia cair. Passei esses últimos quinze dias com a cabeça a mil, Luíza quase me deixou no vermelho. Não sei se ela gosta de mim ou da minha carteira – ou, melhor dizendo - da carteira dos meus pais, porque afinal são eles quem bancam tudo, com exceção da grana da faculdade que faço questão de pagar.

Esse lugar é muito barulhento. Odeio lugares cheios, e Luiza adora. Somos bem diferentes em vários aspectos. Pensei bem a respeito e, para a minha surpresa, não fiquei nem um pouco chateado com a minha decisão. Luiza vem demonstrando há um tempo quais são suas reais intenções e isso facilitou em muito na minha decisão.

Marquei de encontrar a Luíza no café do Shopping Boulevard. Apesar de eu odiar, o lugar é um dos “points” favoritos de Luíza, e o fato de estar sempre cheio – o que hoje estou adorando – é o que me fez marcar o encontro aqui: com plateia Luíza não vai dar showzinho quando eu jogar a bomba no colo dela. Pois é, ela adora gritar e discutir, mas odeia chamar a atenção tanto quanto eu – pelo menos alguma coisa temos em comum a final. 

Contra todas as minhas regras - que dizem pra sentar sempre no fundo, longe dos olhos curiosos das pessoas - sentei no meio do lugar, na parte onde ficam as mesinhas individuais. Isso mesmo, mesinhas individuais, não estou a fim de pagar nada pra ela hoje, nem um café simples.

O lugar até que é legalzinho. Nunca presto muita atenção quando estou com Luíza porque tenho que ficar de olho no que ela pede, o que me deixa irritado e sem cabeça pra apreciar o lugar. Tudo é de madeira bem escura, o chão, as mesas e cadeiras, o bar. Tem uma escada de madeira na lateral da entrada que leva para um reservado com mais mesas e cadeiras, porém com o luxo de uma TV enorme e uma mesa de bilhar pra jogar à vontade sem a preocupação das fichas. É, acho que se for pra ficar no reservado até posso voltar mais algumas vezes.

São 10h45min e Luíza ainda não chegou. O lugar estava vazio quando cheguei, há pelo menos meia hora atrás, mas agora das 25 mesas pelo menos 18 já estão ocupadas, incluindo a minha. A música de fundo é um sertanejo universitário horrível. Eu gosto de sertanejo, mas tem que ser bom, e esse não é.

Fico imaginando como Luíza vai reagir. Dizer que ela vai ficar arrasada seria exagero, é evidente que ela não me ama, mas ela vai no mínimo ficar muito puta por perder tanto tempo se arrumando só pra levar um fora.

Foi pensar nela pra ela aparecer. Luíza é do tipo “barbie”, cintura fina e seios grandes. Loira, olhos azuis e lábios finos, sempre com batom vermelho. Nem preciso dizer que ela sabe se vestir valorizando o corpo cheio de curvas, o que sempre atrai olhares de todos os lados.

O salto de Luíza fez um barulho alto no chão de madeira, e os olhares que ela atraiu a seguiram até ela parar na minha frente.

- Rafa... Mesa individual? – Luíza me olhou com uma cara do tipo “você é idiota?”.

Tomei um gole no chopp que pedi enquanto a esperava. Seria a última conversa irritante que teríamos e esse pensamento me relaxava.

- Luíza eu vou ser bem direto com você pra não sobrarem dúvidas, tudo bem?

Luíza colocou uma mão na cintura enquanto a outra segurava a bolsa bege ao lado do corpo.

- O que foi dessa vez: não vamos pedir nada pra comer? Seus pais não te deram grana esse mês?

Mais uma vez o único problema que Luíza enxerga é o financeiro. Isso chega a me dar nojo.

- Não. Não tenho problema com dinheiro esse mês.

Tirei uma nota de dez e coloquei sobre a mesa, embaixo da taça e então me levantei.

- Nós vamos pra outro lugar? – Luíza nem desconfia do que estou prestes a dizer a ela. E o pior é que estou começando a ficar com pena dela. Não posso deixar a pena me impedir de fazer isso.

Fiquei próximo o suficiente dela. Olhei bem nos olhos dela e tirei a minha aliança do dedo. É claro que ela não entendeu o gesto de primeira, precisei abrir a mão dela e colocar a aliança dentro. A aliança já havia perdido o significado há muito tempo pra mim, já havia se tornado apenas um anel de prata.

- O que é isso? O que você está fazendo Rafael? – Os olhos de Luíza queimavam em brasa. Tive a nítida impressão de que ela queria me bater com a bolsa porque ela cerrou o punho em volta da alça com tanta força que as juntas dos dedos ficaram brancas.

- Estou terminando com você. Não quero mais namorar contigo. A gente não combina mais.

Pronto, falei! As palavras saíram e junto delas um peso enorme saiu dos meus ombros. Nunca foi tão boa a sensação de liberdade.

Luíza fechou os olhos lentamente e cerrou a outra mão sobre a aliança que entreguei a ela. Aposto que ela devia estar tentando quebrar a aliança.

- Então é pra isso que me chamou aqui? – A voz de Luíza parecia um sussurro. Naquele instante ela compreendeu o motivo do lugar – nada de showzinho.

- Exatamente. Pode ficar com o par de alianças, eu não quero. E não precisa devolver nada e nem me mandar nada do que está no seu AP. Quero encerrar aqui definitivamente. Sem ligações, sem e-mails, sem nada. Se for pra gente se ver ainda, apenas na faculdade, e como amigos. É a única coisa que eu peço.

Coloquei as mãos nos bolsos da blusa e aguardei alguns segundos. Se ela tinha algo pra dizer, que fosse agora.

- Por quê?!

Opa! Isso é um olhar de surpresa? Não acredito! Luíza realmente não esperava por isso. Dei dois passos e fiquei ao lado dela, de frente para a saída, enquanto ela fitava a mesa onde eu estava com olhar perdido e furioso.

- Porque, Luíza, você não me ama, e eu não amo você.

Então eu saí, decidido a não olhar para trás. Se ela fosse ter um chilique que fosse longe de mim. Apesar de que eu duvido que ela faria uma cena num lugar público que ela adora frequentar.

Dei mais algumas voltas no Shopping só pra esquecer o que havia acontecido. Dei uma olhada em uma loja que vende artigos esportivos e em uma outra que vende games. Não comprei nada. Parei de curioso em um estande que vende coisas exotéricas, como incensos, velas aromáticas, cartas de tarô, bolas de cristal, runas... A vendedora era uma mulher simpática de seus cinquenta e tantos anos.

- Interessado em algo em particular meu jovem?

A voz da mulher era melodiosa e carregada de um sotaque que não consegui identificar.

- Não sei... Sorte talvez? Acho que isso é algo que acabamos todos sempre precisando.

Sorri e tentei ser gentil. A mulher sorriu de volta e me entregou um baralho grande.

- Acho que você precisa de algo diferente de sorte. Vamos ver a sua sorte para ter certeza. Embaralhe as cartas.

- Desculpe senhora, não estou interessado em comprar nada e menos ainda em ter uma consulta. Nem acredito nessas coisas. Só parei de curiosidade.

A mulher sorriu. Sorriu como se fosse minha mãe. Um sorriso daqueles que te abraça e te diz “está tudo bem”.

- Relaxe rapaz. Não vou te cobrar nada. Apenas embaralhe sim, esvazie a cabeça de qualquer problema e embaralhe.

Não sei dizer o motivo, mas fiz exatamente o que a mulher me pediu, me achando um idiota fazendo isso na frente do todas as dezenas de pessoas que passavam por ali. Tentei não pensar em nada em quanto embaralhava. Assim que terminei devolvi o baralho.

- Este é um tarô muito antigo. Foi da mãe da mãe de minha avó. Está na família ha anos e sempre trás boas respostas às perguntas que ainda não nos fizemos. Irei distribuí-lo sobre a bancada em uma linha reta. Você passará a mão sobre todas as cartas e a carta que, de algum modo, parecer diferente a você é a que deve pegar.

Esperei a mulher fazer o que havia dito. Sobre o balcão ficava estendido um pano roxo cheio de estrelas. Então fiz como ela falou, passei a mão sobre todas as cartas, e o estranho é que uma delas parecia meio pegajosa, grudenta, mas não me lembro de ter alguma carta grudenta enquanto eu embaralhava. Enfim, eu retirei a carta...


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