Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

-- Marion - Capítulo I parte 2: O Corno --


Depois do quinto pedaço de pizza desabo no sofá. Minha mãe foi dar plantão no hospital hoje e fiquei sozinha em casa. Minha irmã mais velha saiu com o namorado meloso dela e não vai voltar tão cedo, então a casa é realmente só minha e da Cléo essa noite.

Cléo é minha gata de estimação. Ela adora pizza tanto quanto eu, mas não posso dar nada diferente de ração pra ela na presença da minha mãe e da minha irmã, se não elas me matam! Mas como hoje a casa está vazia, e digo novamente, vazia, eu e Cléo comemos pizza de mussarela juntas.

Tenho que repetir pra mim mesma que a casa está vazia, só pra me sentir mais feliz. Adoro ter a casa toda pra mim, é uma sensação maravilhosa.

Estou largada no sofá assistindo um show de stand-up quando o telefone toca. Preciso lutar contra a minha preguiça pra me levantar e ir atender. Infelizmente chego ao aparelho antes de terminar de tocar – odeio atender telefone, é por isso que nem celular eu tenho.

- Alô...

Atendo o mais animada que consigo depois de ter devorado uma pizza enorme e meia garrafa de refrigerante.

É minha mãe do outro lado da linha, perguntando se estou bem e se não estou enchendo a gata de porcaria. Respondo que está tudo ótimo e que ligo se precisar de algo. Minha mãe desliga e eu volto a me jogar no sofá. Cléo sobe na minha barriga e permanecemos deitadas assistindo TV por umas duas horas.

Já passa das duas da manhã e Juliana ainda não chegou. Não que eu me preocupe, mas sei que se a nossa mãe chegar mais cedo em casa e ela não estiver vai sobrar bronca pra todo mundo.

Cléo resmunga quando me levanto pra ir espiar a janela que dá pra rua. Fico aliviada quando vejo a Jú e o namorado ridículo dela se agarrando no portão. Menos mal. Melhor no portão do que sabe-se-lá-onde.

Recolho a caixa da pizza e o refrigerante para a cozinha, pego Cléo no colo e subo pro meu quarto, deixando a TV ligada só pra Jú ter que desligar quando entrar.

Assim que entro no meu quarto Cléo pula do meu colo para cima da cama. Caminho até a janela e puxo a cortina pra diminuir a claridade. Não gosto de dormir com a janela fechada. Minha mãe diz que é perigoso, mas eu repondo dizendo que se a casa pegar fogo e eu estiver no quarto, melhor que a janela esteja aberta.

Jogo os chinelos longe e me enfio debaixo do edredom macio. Cléo se ajeita na minha bunda e eu logo pego no sono, agarrada ao meu travesseiro de Transformers.

Acordo com minha mãe gritando na cozinha. Levantei mais que depressa e desci toda desgrenhada pra ver o que estava acontecendo. Pra variar a Jú aprontou: trouxe o namorado pra dormir aqui em casa sem pedir.

- Que pouca vergonha é essa garota?!

Minha mãe gritava histericamente. Acho que nunca a havia visto tão chocada em toda a minha vida, e isso me faz ficar chocada.

- Ah mãe, relaxa. A gente não fez nada de mais. Só conversamos e depois dormimos. E ele ainda dormiu no chão!

A Jú não era nada boa em mentir, dava pra ver de longe que os dois tinham transado. Acabei ficando com pena do Caio, tenho pra mim que quem forçou a barra foi a Jú, e não ele.

- Rapaz, eu vou pedir pra você sair, porque o problema não é você, ok? A conversa é entre a Juliana e eu.

Antes que a Jú fizesse menção de segurar o Caio eu o puxei pelo braço e levei até a sala. Abri a porta e o empurrei pra fora.

- Valeu Mari!

Nem esperei ele agradecer direito e bati a porta. Então corri de volta pra cozinha. Tava na cara que a briga de verdade ia começar agora, e mesmo que eu quisesse muito ver a Jú se dar mal – porque ela tava merecendo - não podia deixar minha mãe perder o controle a ponto de voar pra cima dela – não é legal quando o conselho tutelar te visita.

- Puta que pariu! O que é que você tem cabeça?!

Minha mãe não é do tipo que mede  palavras pra dar bronca na gente, como consequência a gente também não mede palavras na hora de se defender.

- Qual é mãe? Fica na sua! Ele é meu namorado pô! O que é que tem de mais?!

- O que é que tem de mais? Porra Juliana, você deu pro cara e agora vem perguntar o que é que tem de mais? E o respeito? Nem eu que sou dona da casa trago macho aqui pra dentro, porque eu respeito vocês!

Contra isso a Jú não tinha argumento. Minha mãe namorava um cara a dois anos e ele nunca dormiu aqui em casa, a não ser uma vez em que bebeu demais, mas ai ele dormiu no quarto do Vinícius, meu irmão mais velho por parte de pai – ele casou ano passado, por isso não mora mais com a gente.

- Ah mãe! Você preferia que eu fizesse na rua?

É a Jú sabe mesmo argumentar. Mas ela aprendeu com a melhor nisso.

- É claro que não! É pra isso que existe a conversa! O diálogo! Mais que merda, eu to aqui pra que? Pra ficar de enfeite? Por que não me disse que tava a fim de transar com esse moleque? 
E mais uma vez a Jú se calou. Mas agora ela estava quase chorando, o que a gente não vê todo dia, porque ela tem um coração de gelo.

- Não sei tá. Não sei...

Pronto, essa é a parte em que a minha mãe amolece e vai abraçar a Jú. Então ela da uma bronca e uma lição de moral, e a briga acaba. Fico feliz de não ter que entrar no meio pra separar as duas. To me sentindo uma idiota, parada olhando, com o cabelo todo desgrenhado e uma gata gorda deitada no meu pé.

- Agora que passamos a ser novamente uma família feliz, podemos tomar café, por favor?

Acho que nunca vou ter uma manhã normal. Mas também, nem me importo. Gosto da minha família do jeito que está agora, e não mudaria nada, nem se pudesse.

Depois de um café da manhã bem conturbado e barulhento, visto uma calça jeans folgada, uma camiseta preta, meu moletom cinza e saio apressada prendendo meu cabelo em um rabo de cavalo – meu expediente começa às 10h. Eu trabalho em um cyber café a trinta minutos da minha casa. O salário não é muito bom, mas dá pra pagar minha faculdade de artes – na verdade meu salário todo vai pra faculdade.

Meu trabalho é bem simples: limpar e servir as mesas. Quando o movimento está baixo eu ajudo no balcão, e descolo umas gorjetas com isso. Aos sábados fico na chapa, fazendo lanches. Meu chefe é o Roberto, mas eu e os mais chegados só chamamos ele de Beto ou Betão. Ele é bonito e simpático, mas não curte animes, então não serve pra mim.

Na verdade acho que nenhum cara serve pra mim. Não, eu não sou lésbica, não sinto nenhum tipo de atração por mulheres, mas também não tenho sentido nenhuma atração por homem algum – to quase me classificando como assexuada.

O dia passou bem rápido, nada de clientes chatos e tarados. Meu expediente encerrou às 18h e saí correndo pra faculdade. Parei num barzinho antes pra comprar uma latinha de cerveja e uma de refrigerante – meu truque é esvaziar a lata de refrigerante e enchê-la com a cerveja.

Assim que entrei no refeitório da faculdade meu estômago me lembrou que eu não havia almoçado. Por sorte as lanchonetes da faculdade só enchem depois das 20h. Comprei um X-Tudo e me sentei na ponta de uma das mesas. Comecei a comer como se aquele fosse o último X-Tudo do planeta.

Dei um gole na minha cerveja disfarçada de refrigerante e comecei a observar o lugar: tanta gente andando de um lado pro outro sem saber pra onde vai na verdade...

Então no meio da minha brisa filosófica sinto uma batida do meu lado, uma mochila caindo no mesmo banco em que eu estava. Tinha um cara do meu lado se preparando pra sentar quando alguém o puxou pelo ombro.

- E ai bonitão, é você que tava dando e cima da minha namorada?

O cara apenas olhou sem entender. Aquele que estava querendo puxar briga era o Roger, o maior corno manso de todo o campus.

- To sabendo que você transou com ela. Qual é a sua?

Não deu pra conter o riso. O Roger é um babaca metido a gostosão, e só tem uma namorada porque tem grana pra bancar os luxos dela, e mesmo assim ela não consegue ser fiel a ele. Deus me livre, mas nem eu conseguiria!

- Eu acho que se a tua namorada deu pro cara aqui, então ele não teve culpa, porque isso na verdade caracteriza traição. E se ela te traiu é porque não vale nada, e aí você é o corno. E se você é o corno, então melhor dar um pé na bunda da sua garota, e não na bunda dele, porque aí a culpa é dela, já que ela é a comprometida da história.

Foi engraçado ver como o Roger me olhou espantado e recuou, sem dizer uma só palavra. No fundo eu tenho muita pena dele.

- Nossa, cara valeu por me defender. Como é teu nome?

Eu ia dizer pra ele não agradecer porque não fiz isso por ele, mas ele está sendo tão gentil que vou ficar quieta.

- Marion, e você?

Estendi minha mão e ele apertou firme, como se cumprimentasse outro homem. Menos mal, eu não ia querer um galinha tipo ele me perseguindo depois.

- Rafael, meu nome é Rafael...


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