Depois
do quinto pedaço de pizza desabo no sofá. Minha mãe foi dar plantão no hospital
hoje e fiquei sozinha em casa. Minha irmã mais velha saiu com o namorado meloso
dela e não vai voltar tão cedo, então a casa é realmente só minha e da Cléo
essa noite.
Cléo
é minha gata de estimação. Ela adora pizza tanto quanto eu, mas não posso dar
nada diferente de ração pra ela na presença da minha mãe e da minha irmã, se
não elas me matam! Mas como hoje a casa está vazia, e digo novamente, vazia, eu
e Cléo comemos pizza de mussarela juntas.
Tenho
que repetir pra mim mesma que a casa está vazia, só pra me sentir mais feliz.
Adoro ter a casa toda pra mim, é uma sensação maravilhosa.
Estou
largada no sofá assistindo um show de stand-up quando o telefone toca. Preciso lutar
contra a minha preguiça pra me levantar e ir atender. Infelizmente chego ao
aparelho antes de terminar de tocar – odeio atender telefone, é por isso que
nem celular eu tenho.
-
Alô...
Atendo
o mais animada que consigo depois de ter devorado uma pizza enorme e meia
garrafa de refrigerante.
É
minha mãe do outro lado da linha, perguntando se estou bem e se não estou
enchendo a gata de porcaria. Respondo que está tudo ótimo e que ligo se
precisar de algo. Minha mãe desliga e eu volto a me jogar no sofá. Cléo sobe na
minha barriga e permanecemos deitadas assistindo TV por umas duas horas.
Já
passa das duas da manhã e Juliana ainda não chegou. Não que eu me preocupe, mas
sei que se a nossa mãe chegar mais cedo em casa e ela não estiver vai sobrar
bronca pra todo mundo.
Cléo
resmunga quando me levanto pra ir espiar a janela que dá pra rua. Fico aliviada
quando vejo a Jú e o namorado ridículo dela se agarrando no portão. Menos mal.
Melhor no portão do que sabe-se-lá-onde.
Recolho
a caixa da pizza e o refrigerante para a cozinha, pego Cléo no colo e subo pro
meu quarto, deixando a TV ligada só pra Jú ter que desligar quando entrar.
Assim
que entro no meu quarto Cléo pula do meu colo para cima da cama. Caminho até a
janela e puxo a cortina pra diminuir a claridade. Não gosto de dormir com a
janela fechada. Minha mãe diz que é perigoso, mas eu repondo dizendo que se a
casa pegar fogo e eu estiver no quarto, melhor que a janela esteja aberta.
Jogo
os chinelos longe e me enfio debaixo do edredom macio. Cléo se ajeita na minha bunda
e eu logo pego no sono, agarrada ao meu travesseiro de Transformers.
Acordo
com minha mãe gritando na cozinha. Levantei mais que depressa e desci toda
desgrenhada pra ver o que estava acontecendo. Pra variar a Jú aprontou: trouxe
o namorado pra dormir aqui em casa sem pedir.
-
Que pouca vergonha é essa garota?!
Minha
mãe gritava histericamente. Acho que nunca a havia visto tão chocada em toda a
minha vida, e isso me faz ficar
chocada.
-
Ah mãe, relaxa. A gente não fez nada de mais. Só conversamos e depois dormimos.
E ele ainda dormiu no chão!
A
Jú não era nada boa em mentir, dava pra ver de longe que os dois tinham
transado. Acabei ficando com pena do Caio, tenho pra mim que quem forçou a
barra foi a Jú, e não ele.
-
Rapaz, eu vou pedir pra você sair, porque o problema não é você, ok? A conversa
é entre a Juliana e eu.
Antes
que a Jú fizesse menção de segurar o Caio eu o puxei pelo braço e levei até a sala. Abri a porta e o empurrei pra fora.
-
Valeu Mari!
Nem
esperei ele agradecer direito e bati a porta. Então corri de volta pra cozinha.
Tava na cara que a briga de verdade ia começar agora, e mesmo que eu quisesse
muito ver a Jú se dar mal – porque ela tava merecendo - não podia deixar minha
mãe perder o controle a ponto de voar pra cima dela – não é legal quando o
conselho tutelar te visita.
-
Puta que pariu! O que é que você tem cabeça?!
Minha
mãe não é do tipo que mede palavras pra dar bronca na gente, como
consequência a gente também não mede palavras na hora de se defender.
-
Qual é mãe? Fica na sua! Ele é meu namorado pô! O que é que tem de mais?!
-
O que é que tem de mais? Porra Juliana, você deu pro cara e agora vem perguntar
o que é que tem de mais? E o respeito? Nem eu que sou dona da casa trago macho
aqui pra dentro, porque eu respeito vocês!
Contra
isso a Jú não tinha argumento. Minha mãe namorava um cara a dois anos e ele
nunca dormiu aqui em casa, a não ser uma vez em que bebeu demais, mas ai ele
dormiu no quarto do Vinícius, meu irmão mais velho por parte de pai – ele casou
ano passado, por isso não mora mais com a gente.
-
Ah mãe! Você preferia que eu fizesse na rua?
É
a Jú sabe mesmo argumentar. Mas ela aprendeu com a melhor nisso.
-
É claro que não! É pra isso que existe a conversa! O diálogo! Mais que merda,
eu to aqui pra que? Pra ficar de enfeite? Por que não me disse que tava a fim
de transar com esse moleque?
E
mais uma vez a Jú se calou. Mas agora ela estava quase chorando, o que a gente
não vê todo dia, porque ela tem um coração de gelo.
-
Não sei tá. Não sei...
Pronto,
essa é a parte em que a minha mãe amolece e vai abraçar a Jú. Então ela da uma
bronca e uma lição de moral, e a briga acaba. Fico feliz de não ter que entrar
no meio pra separar as duas. To me sentindo uma idiota, parada olhando, com o
cabelo todo desgrenhado e uma gata gorda deitada no meu pé.
-
Agora que passamos a ser novamente uma família feliz, podemos tomar café, por
favor?
Acho
que nunca vou ter uma manhã normal. Mas também, nem me importo. Gosto da minha
família do jeito que está agora, e não mudaria nada, nem se pudesse.
Depois
de um café da manhã bem conturbado e barulhento, visto uma calça jeans folgada,
uma camiseta preta, meu moletom cinza e saio apressada prendendo meu cabelo em
um rabo de cavalo – meu expediente começa às 10h. Eu trabalho em um cyber café
a trinta minutos da minha casa. O salário não é muito bom, mas dá pra pagar
minha faculdade de artes – na verdade meu salário todo vai pra faculdade.
Meu
trabalho é bem simples: limpar e servir as mesas. Quando o movimento está baixo
eu ajudo no balcão, e descolo umas gorjetas com isso. Aos sábados fico na chapa, fazendo lanches. Meu chefe é o Roberto,
mas eu e os mais chegados só chamamos ele de Beto ou Betão. Ele é bonito e
simpático, mas não curte animes, então não serve pra mim.
Na
verdade acho que nenhum cara serve pra mim. Não, eu não sou lésbica, não sinto
nenhum tipo de atração por mulheres, mas também não tenho sentido nenhuma
atração por homem algum – to quase me classificando como assexuada.
O
dia passou bem rápido, nada de clientes chatos e tarados. Meu expediente
encerrou às 18h e saí correndo pra faculdade. Parei num barzinho antes pra
comprar uma latinha de cerveja e uma de refrigerante – meu truque é esvaziar a
lata de refrigerante e enchê-la com a cerveja.
Assim
que entrei no refeitório da faculdade meu estômago me lembrou que eu não havia
almoçado. Por sorte as lanchonetes da faculdade só enchem depois das 20h.
Comprei um X-Tudo e me sentei na ponta de uma das mesas. Comecei a comer como
se aquele fosse o último X-Tudo do planeta.
Dei
um gole na minha cerveja disfarçada de refrigerante e comecei a observar o
lugar: tanta gente andando de um lado pro outro sem saber pra onde vai na
verdade...
Então
no meio da minha brisa filosófica sinto uma batida do meu lado, uma mochila
caindo no mesmo banco em que eu estava. Tinha um cara do meu lado se preparando
pra sentar quando alguém o puxou pelo ombro.
-
E ai bonitão, é você que tava dando e cima da minha namorada?
O
cara apenas olhou sem entender. Aquele que estava querendo puxar briga era o
Roger, o maior corno manso de todo o campus.
-
To sabendo que você transou com ela. Qual é a sua?
Não
deu pra conter o riso. O Roger é um babaca metido a gostosão, e só tem uma
namorada porque tem grana pra bancar os luxos dela, e mesmo assim ela
não consegue ser fiel a ele. Deus me livre, mas nem eu conseguiria!
-
Eu acho que se a tua namorada deu pro cara aqui, então ele não teve culpa,
porque isso na verdade caracteriza traição. E se ela te traiu é porque não vale
nada, e aí você é o corno. E se você é o corno, então melhor dar um pé na bunda
da sua garota, e não na bunda dele, porque aí a culpa é dela, já que ela é a comprometida da história.
Foi
engraçado ver como o Roger me olhou espantado e recuou, sem dizer uma só
palavra. No fundo eu tenho muita pena dele.
-
Nossa, cara valeu por me defender. Como é teu nome?
Eu
ia dizer pra ele não agradecer porque não fiz isso por ele, mas ele está sendo
tão gentil que vou ficar quieta.
-
Marion, e você?
Estendi
minha mão e ele apertou firme, como se cumprimentasse outro homem. Menos mal,
eu não ia querer um galinha tipo ele me perseguindo depois.
-
Rafael, meu nome é Rafael...
***

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