Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

-- INSOLITUM - Entre os Entendidos: Parte III --


Carlos notou os olhos vermelhos de Ada e na mesma hora disfarçou o olhar. Devolveu a revista à mesinha e se levantou. Acenou para Marlene se despedindo e caminhou até Ada que já estava no meio da sala de espera.

- Então você esperou? Não acredito que realmente esperou. – Não que Ada não estivesse disposta a falar com Carlos, mas ela imaginou que o rapaz fosse se cansar de esperar e ir embora.

 - Você não queria que eu esperasse? – Carlos ficou levemente desapontado. Teve a nítida impressão de que a linda garota a sua frente não desejava a sua companhia.

Ada corou e caminhou em direção às portas duplas que davam para a rua. Caminhou tão depressa que Carlos só a alcançou quando já estavam na calçada.

- Olha me desculpe. Eu não quis te pressionar. Se não quiser sair comigo tudo bem. Falo com Mathias quando ele voltar da Convenção. – Carlos estava ao lado de Ada, evidentemente preocupado com o que ela supostamente estava pensando dele.

Ada inclinou a cabeça levemente para trás, fechou os olhos e respirou fundo, como se quisesse absorver todo o ar do planeta; soltou o ar levemente, abriu os olhos e olhou para Carlos inclinando a cabeça levemente para a esquerda.

- Você disse alguma coisa?

Pronto! Era exatamente isso o que ela esperava: Carlos ficou desnorteado. Não sabia o que responder. Era óbvio que ele não estava interessado apenas em conversar sobre “Pacientes Experimentas” de Mathias. Se fosse esse o caso, não teria ficado mudo de repente.

- Bem Senhor Carlos, para começar isto não é um encontro.

Carlos se endireitou e ficou sério. Dava para notar que ele na verdade estava preocupado com o que Ada diria a seguir.

- Em segundo lugar, só frequento o Sweet Moon. E em terceiro... Eu pago a minha conta. Tudo bem assim?

Carlos apenas consentiu com a cabeça. Seus olhos estavam esperançosos e carregados de expectativas.

Ambos caminharam por mais dois quarteirões, cruzaram a Av. Mouret e logo na esquina estava o café, quase vazio. O letreiro luminoso lembrava uma xícara de porcelana.

Ada entrou e cumprimentou a garçonete com um abraço – Anna. Ada conhecia todos naquele café. Anna levou Ada e Carlos até os fundos onde havia uma área verde, uma espécie de jardim, bem ao estilo veneziano no que se tratava de mesas e cadeiras, mas as flores e a decoração do jardim em geral lembravam a gravuras japonesas.

Carlos permanecia calado, apenas observando e absorvendo tudo. Notou o olhar espantado da garçonete ao perceber que ele estava acompanhando Ada. Para ele ficou bem claro que Ada não era do tipo que saía com muitos rapazes, e intimamente Carlos começou a se perguntar “por quê?”.

Carlos e Ada sentaram-se na mesinha que ficava embaixo de uma cerejeira.  A vista era privilegiada de onde estavam, podiam ver o parque de diversões multicolorido com suas luzes de neon ao fundo, alguns prédios á esquerda com outdors de bandas do tipo regionais - que não fazem sucesso, e á direita o que Ada mais gostava: o lago Sérénade, a única coisa que Ada se permitia admirar naquela cidade.

- Anna eu vou querer o de sempre. – Ada se adiantou no pedido dispensando o cardápio que estava a sua frente.

Carlos deu uma olhada rápida no cardápio e pediu um café com creme. Não conseguia pedir nada melhor no momento, estava ansioso pela conversa com Ada.

Anna finalmente se retirou e ambos ficaram sozinhos, cercados por um silêncio incômodo até que Ada o quebrou de um jeito nada delicado.

- Qual é a sua doença?

Carlos ficou pálido. Não esperava que Ada pudesse ser tão direta. Mas afinal, o que poderia esperar? Ele nem a conhecia.

- Não sei se quero te contar. – Carlos não parecia muito à vontade agora.

- Não sei se vale a pena te contar sobre os estudos de Mathias. – Ada decidiu pagar a ele na mesma moeda.

Ficaram mudos, apenas se encarando até que Anna retornou com a bebida de ambos: café com creme para Carlos e choconhaque para Ada.

Assim que Anna saiu Ada deu um gole em sua bebida. Devolveu a xícara à mesa e apoiou os cotovelos na mesa, olhando fixamente para Carlos.

- Façamos uma troca justa: você me conta a sua doença, e eu te conto o motivo de Mathias estar interessado em você, o que de brinde lhe dá o direito de saber como funciona o programa de Pacientes Experimentais.

Carlos tomou um gole de seu café e imitou o gesto de Ada.

- E você vai me contar qual é a sua doença?

Ada se endireitou e encostou-se à cadeira, então olhou para o lago.

- Todos que vivem nesta cidade a mais de dez anos conhecem a minha doença. Você não precisa perguntar a mim. Mas se vai ficar feliz em ouvir da minha boca qual é o meu problema de saúde...

Carlos ficou sério por um momento. Percebeu uma certa melancolia no olhar de Ada. Ela parecia uma garota normal, com uma vida normal, mas ele sabia que estava longe disto ser verdade.

- Tudo bem então. Eu conto a você o meu problema e você me conta o seu.

- Pensei que estivesse interessado nos estudos de Mathias.

- E estou. E até onde eu sei você é o maior estudo dele. Saber sobre você é saber sobre o estudo.

Ada sorriu. Carlos estava certo. Graças a ela que Mathias iniciou o Programa e desenvolveu tratamento para tantas pessoas. Graças a Ada Mathias conseguiu salvar dezenas de vidas que já haviam sido desacreditadas por outros médicos e até prolongar muitas outras.

- Tudo bem. Mas você começa. – Disse Ada.

Carlos tomou mais um gole do café. O calor da xícara era bem aconchegante em suas mãos naquele tempo frio.

- Minha doença é no cérebro. - Disse depositando a xícara sobre a mesa e fitando os olhos curiosos de Ada.




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