Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

quarta-feira, 10 de junho de 2015

-- Não Existe Honra Entre Assassinos - Parte I: O Fim --


Suas mãos estavam manchadas de sangue. A roupa estava tingida em vermelho vivo. A seus pés uma poça e um corpo. Estava feito. Há muito que desejava aquilo, porém naquele instante não se sentia tão bem quando imaginou que se sentiria. Debaixo das unhas havia terra e ferrugem, provenientes da arma que havia utilizado. Alguns tufos de cabelo ainda se penduravam em sua mão esquerda - “Devem ter saído da cabeça dela quando a arrastei pelo galpão” – pensou enquanto sacudia a mão.

Sentou-se ao lado do corpo inerte, esticou as pernas e se recostou na máquina de prensa – estavam o assassino e o cadáver em um galpão velho, que outrora servia como gráfica de um antigo jornal da cidade. Procurou o maço de cigarros no bolso e tirou um, sacou o isqueiro e o acendeu. Deu duas tragadas profundas e as soltou fazendo círculos no ar.

Em sua mente a cena do crime se reproduzia, lenta e repetidamente. As escadas, o corredor, a máquina de prensa, o presente, as alianças e por fim a barra de ferro – um pedaço de uma cadeira velha que serviu para dar fim a tudo aquilo.

Mal se deu conta de que o cigarro já apagara. Acendeu outro e cruzou os braços sobre o peito. Ficou imaginando qual seria o próximo passo. Não pensava em fugir ou se esconder, mas ser preso por fazer a coisa certa também não lhe parecia nada agradável.

Levantou-se vagarosamente. Cutucou o cadáver uma última vez com o pé, só para garantir que realmente estava morto. Deu a volta no corpo e subiu as escadas de metal. Chegando ao andar de cima caminhou até a plataforma móvel onde eram suspensas as pilhas de jornal antes de serem amarradas para a distribuição. Abaixo da plataforma havia um grande recipiente de ferro, cheio de papéis velhos e empoeirados, a mais de 15 metros de altura.

Tirou o cinto da calça e o pendurou na barra acima de sua cabeça. Desceu novamente as escadas e caminhou até o corpo, abaixando-se ao lado e virando-o para cima. Acariciou o rosto daquela que um dia havia sido a mulher mais linda com quem se envolveu - a dona de um sorriso sedutor, a mulher mais apaixonante que já havia conhecido.

Lembrou-se de como já haviam sido felizes e teve que segurar para não chorar e se arrepender, ou desistir do que estava prestes a fazer. Fechou os olhos assustados do cadáver e tomou-a nos braços, aninhando-a como costumava fazer nas noites frias. Alguns tufos de cabelo saíram em suas mãos, mas ele continuou como se não houvesse notado.

Levantou-se com a ex-amada nos braços e subiu as escadas. Ao chegar novamente na plataforma deitou sua amante bem na beirada, tirou-lhe a blusa ensanguentada e usou-a para estender o comprimento da corda improvisada. Amarrou como pôde em volta do próprio pescoço e puxou a alavanca que fazia a plataforma descer.

“Quero morrer olhando pra você, Mary Ann” – pensou enquanto a plataforma descia e a corda improvisada esmagava sua garganta, tirando-lhe o ar dos pulmões e levando para o outro mundo o seu último sopro de vida.


***

Era um dia de verão, e Mary Ann estava deitada sobre uma esteira tomando sol. Impossível não notá-la, tão linda e atraente em meio a tantas mulheres comuns. Não consegui não me enfeitiçar por ela.

Eu sou  Pierre Ètoile, e esta é a minha história...


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