Suas mãos estavam manchadas de
sangue. A roupa estava tingida em vermelho vivo. A seus pés uma poça e um
corpo. Estava feito. Há muito que desejava aquilo, porém naquele instante não
se sentia tão bem quando imaginou que se sentiria. Debaixo das unhas havia
terra e ferrugem, provenientes da arma que havia utilizado. Alguns tufos de
cabelo ainda se penduravam em sua mão esquerda - “Devem ter saído da cabeça dela
quando a arrastei pelo galpão” – pensou enquanto sacudia a mão.
Sentou-se ao lado do corpo inerte,
esticou as pernas e se recostou na máquina de prensa – estavam o assassino e o
cadáver em um galpão velho, que outrora servia como gráfica de um antigo jornal
da cidade. Procurou o maço de cigarros no bolso e tirou um, sacou o isqueiro e o
acendeu. Deu duas tragadas profundas e as soltou fazendo círculos no ar.
Em sua mente a cena do crime se
reproduzia, lenta e repetidamente. As escadas, o corredor, a máquina de prensa,
o presente, as alianças e por fim a barra de ferro – um pedaço de uma cadeira
velha que serviu para dar fim a tudo aquilo.
Mal se deu conta de que o cigarro
já apagara. Acendeu outro e cruzou os braços sobre o peito. Ficou imaginando
qual seria o próximo passo. Não pensava em fugir ou se esconder, mas ser preso
por fazer a coisa certa também não lhe parecia nada agradável.
Levantou-se vagarosamente. Cutucou
o cadáver uma última vez com o pé, só para garantir que realmente estava morto.
Deu a volta no corpo e subiu as escadas de metal. Chegando ao andar de cima
caminhou até a plataforma móvel onde eram suspensas as pilhas de jornal antes
de serem amarradas para a distribuição. Abaixo da plataforma havia um grande
recipiente de ferro, cheio de papéis velhos e empoeirados, a mais de 15 metros
de altura.
Tirou o cinto da calça e o
pendurou na barra acima de sua cabeça. Desceu novamente as escadas e caminhou
até o corpo, abaixando-se ao lado e virando-o para cima. Acariciou o rosto
daquela que um dia havia sido a mulher mais linda com quem se envolveu - a dona
de um sorriso sedutor, a mulher mais apaixonante que já havia conhecido.
Lembrou-se de como já haviam sido
felizes e teve que segurar para não chorar e se arrepender, ou desistir do que
estava prestes a fazer. Fechou os olhos assustados do cadáver e tomou-a nos
braços, aninhando-a como costumava fazer nas noites frias. Alguns tufos de
cabelo saíram em suas mãos, mas ele continuou como se não houvesse notado.
Levantou-se com a ex-amada nos
braços e subiu as escadas. Ao chegar novamente na plataforma deitou sua amante
bem na beirada, tirou-lhe a blusa ensanguentada e usou-a para estender o
comprimento da corda improvisada. Amarrou como pôde em volta do próprio pescoço
e puxou a alavanca que fazia a plataforma descer.
“Quero morrer olhando pra você,
Mary Ann” – pensou enquanto a plataforma descia e a corda improvisada esmagava
sua garganta, tirando-lhe o ar dos pulmões e levando para o outro mundo o seu
último sopro de vida.
***
Era um dia de verão, e Mary Ann
estava deitada sobre uma esteira tomando sol. Impossível não notá-la, tão linda
e atraente em meio a tantas mulheres comuns. Não consegui não me enfeitiçar por
ela.

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