Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 15 de junho de 2015

-- INSOLITUM - Entre os Entendidos: Parte II --



- É incrível como o seu organismo está respondendo ao tratamento. Farei mais alguns testes com o seu material, espero que possa encontrar uma pista do que está acontecendo com você.  – Dizia Mathias enquanto caminhava no corredor ao lado do rapaz.

Mathias parou de falar quando notou Ada e Marlene paradas logo a sua frente.

- Mas que milagre é este?! – Exclamou o médico – Finalmente você chegou no horário para a consulta!

Ada sorriu e virou o rosto levemente para Marlene. Algo estava errado.

- Marlene você me disse que a minha consulta era às 15h45min. Eu devia estar no mínimo vinte minutos atrasada... – Disse confusa.

Mathias olhava confuso de Ada para Marlene e de Marlene para Ada. O médico também não estava entendendo nada.

- Desculpe Ada, mas como você sempre se atrasa e o Doutor sempre reclama me precavi desta vez. Disse a você que deveria estar aqui às 15h45min, mas a Sua consulta está marcada para as 16h10min. – Disse Marlene no tom mais meloso possível a fim de que Ada a desculpasse.

- Eu sabia que era um milagre grande demais para ser verdade! – Riu Mathias.

Ada enrubesceu, não por Mathias ou Marlene, mas pelo rapaz que estava ao lado de Mathias.

- Bom... Pelo menos funcionou. – Disse sorrindo para Marlene.

Mathias virou-se para o rapaz a seu lado e estendeu a mão para apresentar Ada.

- Carlos, esta é Ada, a paciente experimental que lhe falei. – Então olhou para Ada – Ada, este é Carlos, meu mais novo paciente experimental.

Ada estendeu a mão e Carlos a apertou firme. A garota não havia olhado muito para o “novo paciente experimental” de Mathias, mas agora apertando sua mão pôde observar como ele era lindo. Não deveria ter mais que vinte e cinco ou seis anos, tinha cabelos castanhos e olhos amendoados, a barba bem feita e um queixo anguloso que fazia com que Ada sentisse vontade de mordê-lo. Os ombros eram largos, dava para ver o abdômen bem definido por baixo da camiseta pólo azul marinho, os braços fortes e as coxas grossas, como as de um nadador.

Ada não era a única a estar admirando alguém, Carlos a absorveu completamente com os olhos. O rapaz se perdeu em sua boca desejando devorá-la. Ada era a perfeita combinação do impossível, tudo o que Carlos achava lindo se concentrava naquela pequena garota, aparentemente tão frágil quanto uma boneca de porcelana.

- Eu e Carlos íamos tomar um café até você chegar, mas já que está aqui vamos começar logo. Você é a minha última paciente do dia! – Disse Mathias trazendo Carlos e Ada de volta à realidade.

Ada virou-se e apanhou a bolsa que estava sobre o sofá. Deu mais um sorriso gentil para Marlene e olhou para Mathias aguardando que ele seguisse para o consultório.

- Sinto muito Carlos. Vamos marcar outra hora para tratar dos detalhes.

- Não quero atrapalhar Mathias, se quiserem posso esperar. Não tenho pressa, você sabe não é, não tenho problema com horário, moro aqui do lado. – Ada apontou para as portas de vidro que davam para a rua.

- Por favor, não se incomode. Você tem uma consulta com o Dr. Mathias agora, eu é que estou aqui atrapalhando. – Disse Carlos olhando diretamente para Ada, em seguida para Mathias - Peço desculpas. Ligo segunda-feira então, Doutor.

Mathias parou por um instante pensativo, então fez uma cara de desaprovação. Havia se lembrado de algo.

- Sinto muito Carlos, na próxima semana não estarei na cidade. Fui convidado para participar de uma convenção de Medicina na Capital e não posso perder. Irei expor minhas pesquisas e recentes descobertas, casos como o seu e o de Ada. É uma oportunidade para encontrar respostas. Respostas para você, para Ada, e muitos outros casos experimentais.

Carlos concordou com um aceno de cabeça. Mathias estava certo, mas mesmo assim não conseguiu deixar de sentir certo desânimo.

Mathias abaixou a cabeça coçando a nuca. Não queria deixar de falar com Carlos, mas ao mesmo tempo não dispensaria Ada da consulta, e em hipótese alguma deixaria de viajar na semana seguinte para a convenção.

- Ada, o que você vai fazer depois da consulta? – Perguntou Mathias.

Ada pensou um pouco, “banho, um pijama macio e folgado, filme na TV, pipoca e um sofá maravilhosamente confortável na sala...

- Nada. Só vou pra casa. Por isso eu disse que... – Ada mal conseguiu concluir a frase antes de Mathias interrompê-la.

- Vá tomar um café com Carlos no meu lugar! – Disse animado, como se sua sugestão fosse salvar o dia.

- Como é? – Ada estava visivelmente confusa.

Mathias colocou uma mão sobre o ombro de Carlos.

- Carlos quer conhecer o projeto do Paciente Experimental. Quer entender como funciona, como trabalhamos, quais são os casos experimentais – o que possuem de extraordinário. Toda aquela burocracia de sempre. Eu iria explicar tudo a ele durante o nosso café. – Mathias olhava de Carlos para Ada ansioso – Pensei que talvez você pudesse tomar um café com ele e explicar toda essa parte. Depois eu passaria para ele apenas a parte dos exames. E convenhamos que você me deve por todas as consultas em que chegou atrasada.  – Mathias olhava agora para Ada com os olhos semicerrados, sua expressão era um tanto engraçada.

Ada olhou bem para Mathias, como se estivesse ponderando a ideia. Marlene deu um chute leve em sua bota fazendo um sinal de positivo com o dedão da mão direita ao lado da perna. A garota fez mais alguns segundos de suspense saboreando a expressão esperançosa no rosto de Carlos, o rapaz parecia muito interessado naquele café, Ada só não sabia dizer se era pelos estudos de Mathias ou por ela.

- Tudo bem. Se não for problema para o Carlos...

- Por mim sem problemas! – Adiantou-se o rapaz com um sorriso lindo no rosto.

- Maravilha! – Exclamou Mathias – Aguarde aqui enquanto examino Ada. Não vai demorar muito. Vamos lá? – Indagou fazendo sinal com a cabeça para Ada que assentiu e seguiu Mathias que já estava caminhando para dentro do consultório.

 - Acho melhor você se sentar, moço. O Dr. Mathias sempre demora com Ada. Ela é seu maior experimento. – Disse Marlene com um sorriso sutil, caminhando de volta para sua cadeira.

- Maior experimento? – Ecoou Carlos.

- Sim. – Marlene sentou-se e continuou – O doutor conhece Ada desde que ela tinha dois anos. Ele praticamente a criou. Se você encontrar os dois na rua vai achar que são pai e filha, de tão próximos.

Carlos sentou-se no sofá e pegou uma revista da mesinha de centro para folhear enquanto aguardava ansioso pela oportunidade de obter mais informações - e de conhecer melhor Ada.

***

- Como tem se sentido Ada? – Perguntou Mathias fazendo algumas anotações no prontuário da moça.

- Bem. Nada de anormal. Só o que relatei por telefone antes de marcar a consulta. – Respondeu enquanto tirava o sobretudo.

Mathias depositou a prancheta com o prontuário de Ada sobre sua mesa e se dirigiu até uma prateleira. Tirou um frasco e caminhou novamente até sua mesa, fez mais algumas anotações no prontuário de Ada e então caminhou até a garota, entregando a ela o frasco comprido e fino.

- Vamos colher mais uma amostra. E por enquanto será a última. Pare de tomar os medicamentos novos, retome os que mediquei antes. Tiveram melhores resultados e 0% de efeito colateral. – Disse enquanto preparava o braço de Ada para coletar uma amostra de sangue.

- Quem diria que chegaríamos até aqui, Mathias. – Ada estava sorrindo quando Mathias terminou de coletar a amostra. Sequer fez careta ou mesmo evitou olhar o sangue fluindo. Aquela cena já era algo normal em seu cotidiano. Era graças aquilo que ela ainda estava viva.

Mathias sorriu silenciosamente. Ada tinha razão, quem diria que chegariam tão longe? Quem poderia imaginar tamanha proeza?

- Tudo que conquistamos foi mais graças a você do que a mim, Ada. Você já salvou muitos pacientes e vai salvar muitos mais! Quisera eu poder conseguir salvá-la...

Ada segurou as mãos daquele que representava a única figura paterna que ela já tivera na vida. Mathias estava desanimado agora, qualquer um podia ver o quanto ele se martirizava por não conseguir fazer mais por Ada.

- Não diga isso Mathias! Não fosse você eu teria passado toda a infância em um quarto de hospital, não teria nem mesmo chegado aos 10 anos! Você me deu a vida que tenho! Se vivo hoje, é por sua causa!

Mathias não se contém e chora. Chora dolorosamente enquanto Ada o abraça como uma filha a um pai.

- Ada, Ada... Você foi quem me salvou. Quando minha menina morreu pensei que Deus me havia castigado pela vida errada que sempre tive, mas então você apareceu naquele hospital...

A essa altura Ada já não conseguia mais segurar as lágrimas. As lembranças que guardava do hospital onde Mathias a encontrou eram as piores. Para Ada, Mathias era o herói que a livrou de toda a dor e sofrimento.

- Você era tão frágil, pequena e tão parecida com a minha filha que não pude não me interessar pelo seu caso. Inicialmente, você sabe, só comecei a tratar você porque isso confortava a dor da culpa que eu sentia. – Mathias ao dizendo e as lágrimas não paravam de rolar em seu rosto.

- Você me salvou Mathias. Você não me curou, mas você me salvou. E se hoje estou aqui, em pé, andando, correndo e ainda vivendo, você é o único responsável. Todos os outros médicos me desacreditaram, mas você seguiu adiante. Você se empenhou. – Disse Ada soltando do abraço paterno e secando as próprias lágrimas.

Mathias deu um largo sorriso e cobriu os olhos com o braço direito, secando as lágrimas e tentando se recompor.

- Ah, mas foi você quem me deu a luz quando fez, o que para todos, pareceu uma loucura. Não fosse pela sua coragem e curiosidade de criança, jamais teríamos descoberto um tratamento.

Ada desceu da maca, apanhou o sobretudo e com um sorriso no rosto virou-se em direção à porta.

- Podemos dizer, então, que essa proeza conquistamos juntos.

Mathias sorriu e abaixou o braço. Realmente, Ada tinha toda a razão, quem diria que conseguiriam chegar tão longe?  Mathias levantou-se e concordou com a cabeça.
- Sim, uma proeza conquistada em conjunto. – Então sorriu e num gesto despediu-se – Até mais, Ada.

Ada alcançou a maçaneta da porta e então parou um segundo.

- Me liga se os resultados mudarem?

Mathias tirou o celular do bolso e o mostrou para ela.

- Na mesma hora! – Exclamou deixando transparecer o mínimo de preocupação e muita esperança.


Ada não disse mais nada, apenas sorriu e abriu a porta, saindo da sala sem olhar para trás, e então foi surpreendida ao notar que Carlos ainda estava esperando por ela.



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