Minha noite foi muito mal
dormida. Depois do que aquela mulher do estande de coisas exotéricas me disse
fiquei meio grilado – “A sua carta é o enamorado. Ela diz que você precisa
aprender a amar de uma forma que nunca experimentou antes. O amor virá até você
da forma que menos estiver esperando”. Não sei dizer o motivo, mas não dormi
direito.
Meu dia também foi uma merda.
Trabalho em um aras que fica a duas horas da minha casa; cuido de doze cavalos,
sendo oito de corrida. Um dos cavalos de corrida quebrou a pata e precisou ser
sacrificado, mas é claro que o dono do cavalo não iria querer fazer o trabalho
sujo, como ele mesmo disse “é pra isso que eu pago você”. Não fosse por
precisar da experiência na área eu mandava ele a merda e ia embora.
Assim que terminei de cuidar do pobre cavalo
me mandei. Nem esperei terminar o expediente. Se ficasse mais um minuto olhando
pra cara deslavada do dono do aras eu ia acabar socando ele.
Só tive tempo de tomar uma
ducha bem rápida e vazar pra faculdade. Assim que entrei no carro meu celular
tocou. Era uma mensagem, por incrível que pareça não era da Luíza. Na verdade
era de uma outra garota, a Brenda. Nada contra as garotas liberais que curtem
sexo sem compromisso, mas ela é uma vadia. E só digo isso porque ela tem
namorado.
Não entendo como uma garota
pode ficar com um cara que não gosta só por causa da grana dele. Entendo menos
ainda o fato do cara saber disso e não dar logo um pé na bunda da garota. Esse
mundo ta perdido mesmo.
Pelo menos a mensagem foi
animadora: “quando posso te chupar de novo?”. Mesmo assim não vai rolar. Já
aproveito pra bloquear o número dela e apagar todas as mensagens que ela já me
mandou. Tudo bem que agora eu to oficialmente solteiro, mas ela não, e tudo do
que não preciso nesse momento é ser perseguido pelo namorado corno dela.
De casa até a faculdade não
leva mais do que vinte minutos de carro. Parei no estacionamento do campus e
corri pra dentro do refeitório. O tempo estava começando a mudar pra chuva, e
eu não tava a fim de me molhar e depois ter que tomar outro banho quando
chegasse em casa.
Parei numa lanchonete pra
comprar qualquer besteira pra comer, acabei comprando um X-Bacon e um
refrigerante. Agora só faltava um lugar pra sentar. O refeitório não estava
exatamente cheio, mas eu também não estava a fim de sentar sozinho em um canto
qualquer – as amigas da Luíza certamente iriam me cercar pra me encher de
perguntas.
Minha estratégia para os
próximos dias é: sentar ao lado de alguém que eu não conheça, com quem eu não
precise puxar assunto, mas que me garanta ficar em paz e sozinho, em silêncio,
sem nenhuma garota se aproximar. Ótimo, agora só preciso encontrar alguém.
- Opa! – Quando olho na ponta
da mesa vejo um cara sentado, comendo um lanche e tomando um refrigerante. Parece
tão distraído que me dá até inveja. Então resolvo ir até lá sentar do lado
dele.
Assim que me aproximo jogo a
mochila no banco, do lado do cara e me preparo pra sentar, então sinto uma mão
me puxando pelo ombro.
- E ai bonitão, é você que tava
dando e cima da minha namorada?
Demorei pra entender o que o
cara tava querendo dizer. Fiquei imaginando se não o conhecia de algum lugar,
porque ele me era muito familiar.
- To sabendo que você transou
com ela. Qual é a sua?
Ah sim! Agora sei de onde
conheço o cara. É corno do namorado da Brenda. Que maravilha, tudo o que eu
precisava pra hoje!
- Eu acho que se a tua namorada
deu pro cara aqui, então ele não teve culpa, porque isso na verdade caracteriza
traição. E se ela te traiu é porque não vale nada, e aí você é o corno. E se
você é o corno, então melhor dar um pé na bunda da sua garota, e não na bunda
dele, porque aí a culpa é dela, já que ele é o solteiro da história.
Caramba o cara aqui do meu lado
me defendeu sem nem me conhecer! Ponta firme ele. E pior é que deu certo, o
idiota do namorado da Brenda olhou pro cara do meu lado e vazou mansinho.
- Nossa, cara valeu por me
defender. Como é teu nome?
- Marion, e você?
Puta que pariu! É uma garota!
Não acredito nisso! Ela me estendeu a mão e to olhando feito retardado pra ela
porque não notei que era uma garota. De longe, com o cabelo preso assim, a
blusa grande e a calça larga ela parece um moleque de uns quinze anos. A única
coisa que denuncia ela é a voz e a altura. Meu como é que não reparei que era
uma garota!
- Rafael, meu nome é Rafael...
Não to pagando pau pra ela, to
é surpreso de ver como ela se parece com um cara. To desconfiado que ela seja
lésbica.
Sentei do lado dela e não
consegui não analisá-la. Ela estava sentada de uma forma confortável pra
homens, comendo um lanche maior que o meu e bebendo... Pera aí, isso não é
refrigerante nem ferrando.
- Melhor comer logo, X-Bacon
fica horrível depois de frio. – Ela me disse lambendo o canto esquerdo da boca,
sujo de mostarda.
Fico um minuto sem reação. Ela
é uma garota, de perto isso fica bem claro, mas de longe ela é um cara, age
como um cara, fala como um cara e come como um cara. Ela só pode ser lésbica.
Me sento ao lado dela com a
minha mochila entre nós. Não consigo não prestar atenção na forma como ela
mastiga, parece faminta e desesperada pra terminar o sanduíche. Então ela dá um
gole no... É, realmente isso não é refrigerante.
- Não é proibido consumir
bebidas alcoólicas dentro do campus? – Pergunto me ajeitando melhor no banco e
abrindo a minha mochila em busca dos meus fones de ouvido.
Ela me olha com um ar
interrogativo e deposita a lata na mesa, pegando o lanche em seguida e enfiando
as batatas entre o pão e o hambúrguer.
- Se você não contar ninguém
vai saber. Então, como acabei de livrar a sua pele acho que você me deve uma, e
como eu cobro tudo o que me devem to te cobrando agora: - Ela faz uma pausa
dramática e me olha fixamente - Não abra o bico. – Então ela da uma mordida monstra no
sanduíche, o que me faz ficar com vontade de colocar as batas no meu lanche
como ela fez no dela.
- Eu não vou contar nada, pode
relaxar. – Digo ao encontrar meus fones.
Então eu pergunto qual é o
curso dela, só pra puxar assunto, não encontrei meus fones e tenho a leve
impressão de que não os coloquei na mochila.
Ela me diz que faz Arte e
começamos a falar sobre qualquer coisa sem importância. Ela me oferece um gole
da cerveja e aceito, então percebo que ela também gosta de Budweiser, o que é
estranho já que todas as garotas com as quais saí acabam odiando essa cerveja.
Com quinze minutos de conversa
descubro que ela gosta de rock, animes, carros de corrida e carros antigos, ela
joga futebol e faz natação quando tem tempo livre, tudo isso me faz pensar se
ela é real, e o pior é que a minha desconfiança de ela ser lésbica só aumenta,
o que é uma pena.
- Bom, tenho que ir pra aula.
Até mais “bonitão”. – Ela diz se despedindo e tirando sarro da minha cara. Eu
aceno e sorrio. Ela realmente me interessou, e isso vai ser um problema.
Ela sai do banco e puxa a
mochila pra cima do ombro, segue em direção às escadas e então some depois de
alguns degraus. Fico sentado olhando pro meu lanche, que nem consegui comer,
sentindo vontade de ir até ela e pedir seu telefone. Vou segurar minha
ansiedade e tentar descobrir algo sobre ela. Não sei o que ela fez, mas quero
muito falar com ela de novo.

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