Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

sexta-feira, 19 de junho de 2015

-- Marion - Capítulo II: Será que ela é...? --


Minha noite foi muito mal dormida. Depois do que aquela mulher do estande de coisas exotéricas me disse fiquei meio grilado – “A sua carta é o enamorado. Ela diz que você precisa aprender a amar de uma forma que nunca experimentou antes. O amor virá até você da forma que menos estiver esperando”. Não sei dizer o motivo, mas não dormi direito.

Meu dia também foi uma merda. Trabalho em um aras que fica a duas horas da minha casa; cuido de doze cavalos, sendo oito de corrida. Um dos cavalos de corrida quebrou a pata e precisou ser sacrificado, mas é claro que o dono do cavalo não iria querer fazer o trabalho sujo, como ele mesmo disse “é pra isso que eu pago você”. Não fosse por precisar da experiência na área eu mandava ele a merda e ia embora.
  Assim que terminei de cuidar do pobre cavalo me mandei. Nem esperei terminar o expediente. Se ficasse mais um minuto olhando pra cara deslavada do dono do aras eu ia acabar socando ele.

Só tive tempo de tomar uma ducha bem rápida e vazar pra faculdade. Assim que entrei no carro meu celular tocou. Era uma mensagem, por incrível que pareça não era da Luíza. Na verdade era de uma outra garota, a Brenda. Nada contra as garotas liberais que curtem sexo sem compromisso, mas ela é uma vadia. E só digo isso porque ela tem namorado.

Não entendo como uma garota pode ficar com um cara que não gosta só por causa da grana dele. Entendo menos ainda o fato do cara saber disso e não dar logo um pé na bunda da garota. Esse mundo ta perdido mesmo.

Pelo menos a mensagem foi animadora: “quando posso te chupar de novo?”. Mesmo assim não vai rolar. Já aproveito pra bloquear o número dela e apagar todas as mensagens que ela já me mandou. Tudo bem que agora eu to oficialmente solteiro, mas ela não, e tudo do que não preciso nesse momento é ser perseguido pelo namorado corno dela.

De casa até a faculdade não leva mais do que vinte minutos de carro. Parei no estacionamento do campus e corri pra dentro do refeitório. O tempo estava começando a mudar pra chuva, e eu não tava a fim de me molhar e depois ter que tomar outro banho quando chegasse em casa.

Parei numa lanchonete pra comprar qualquer besteira pra comer, acabei comprando um X-Bacon e um refrigerante. Agora só faltava um lugar pra sentar. O refeitório não estava exatamente cheio, mas eu também não estava a fim de sentar sozinho em um canto qualquer – as amigas da Luíza certamente iriam me cercar pra me encher de perguntas.

Minha estratégia para os próximos dias é: sentar ao lado de alguém que eu não conheça, com quem eu não precise puxar assunto, mas que me garanta ficar em paz e sozinho, em silêncio, sem nenhuma garota se aproximar. Ótimo, agora só preciso encontrar alguém.

- Opa! – Quando olho na ponta da mesa vejo um cara sentado, comendo um lanche e tomando um refrigerante. Parece tão distraído que me dá até inveja. Então resolvo ir até lá sentar do lado dele.
Assim que me aproximo jogo a mochila no banco, do lado do cara e me preparo pra sentar, então sinto uma mão me puxando pelo ombro.

- E ai bonitão, é você que tava dando e cima da minha namorada?

Demorei pra entender o que o cara tava querendo dizer. Fiquei imaginando se não o conhecia de algum lugar, porque ele me era muito familiar.

- To sabendo que você transou com ela. Qual é a sua?

Ah sim! Agora sei de onde conheço o cara. É corno do namorado da Brenda. Que maravilha, tudo o que eu precisava pra hoje!

- Eu acho que se a tua namorada deu pro cara aqui, então ele não teve culpa, porque isso na verdade caracteriza traição. E se ela te traiu é porque não vale nada, e aí você é o corno. E se você é o corno, então melhor dar um pé na bunda da sua garota, e não na bunda dele, porque aí a culpa é dela, já que ele é o solteiro da história.

Caramba o cara aqui do meu lado me defendeu sem nem me conhecer! Ponta firme ele. E pior é que deu certo, o idiota do namorado da Brenda olhou pro cara do meu lado e vazou mansinho.

- Nossa, cara valeu por me defender. Como é teu nome?

- Marion, e você?

Puta que pariu! É uma garota! Não acredito nisso! Ela me estendeu a mão e to olhando feito retardado pra ela porque não notei que era uma garota. De longe, com o cabelo preso assim, a blusa grande e a calça larga ela parece um moleque de uns quinze anos. A única coisa que denuncia ela é a voz e a altura. Meu como é que não reparei que era uma garota!

- Rafael, meu nome é Rafael...

Não to pagando pau pra ela, to é surpreso de ver como ela se parece com um cara. To desconfiado que ela seja lésbica.

Sentei do lado dela e não consegui não analisá-la. Ela estava sentada de uma forma confortável pra homens, comendo um lanche maior que o meu e bebendo... Pera aí, isso não é refrigerante nem ferrando.

- Melhor comer logo, X-Bacon fica horrível depois de frio. – Ela me disse lambendo o canto esquerdo da boca, sujo de mostarda.

Fico um minuto sem reação. Ela é uma garota, de perto isso fica bem claro, mas de longe ela é um cara, age como um cara, fala como um cara e come como um cara. Ela só pode ser lésbica.

Me sento ao lado dela com a minha mochila entre nós. Não consigo não prestar atenção na forma como ela mastiga, parece faminta e desesperada pra terminar o sanduíche. Então ela dá um gole no... É, realmente isso não é refrigerante.

- Não é proibido consumir bebidas alcoólicas dentro do campus? – Pergunto me ajeitando melhor no banco e abrindo a minha mochila em busca dos meus fones de ouvido.

Ela me olha com um ar interrogativo e deposita a lata na mesa, pegando o lanche em seguida e enfiando as batatas entre o pão e o hambúrguer.

- Se você não contar ninguém vai saber. Então, como acabei de livrar a sua pele acho que você me deve uma, e como eu cobro tudo o que me devem to te cobrando agora: - Ela faz uma pausa dramática e me olha fixamente - Não abra o bico.  – Então ela da uma mordida monstra no sanduíche, o que me faz ficar com vontade de colocar as batas no meu lanche como ela fez no dela.

- Eu não vou contar nada, pode relaxar. – Digo ao encontrar meus fones.

Então eu pergunto qual é o curso dela, só pra puxar assunto, não encontrei meus fones e tenho a leve impressão de que não os coloquei na mochila.

Ela me diz que faz Arte e começamos a falar sobre qualquer coisa sem importância. Ela me oferece um gole da cerveja e aceito, então percebo que ela também gosta de Budweiser, o que é estranho já que todas as garotas com as quais saí acabam odiando essa cerveja.

Com quinze minutos de conversa descubro que ela gosta de rock, animes, carros de corrida e carros antigos, ela joga futebol e faz natação quando tem tempo livre, tudo isso me faz pensar se ela é real, e o pior é que a minha desconfiança de ela ser lésbica só aumenta, o que é uma pena.

- Bom, tenho que ir pra aula. Até mais “bonitão”. – Ela diz se despedindo e tirando sarro da minha cara. Eu aceno e sorrio. Ela realmente me interessou, e isso vai ser um problema.


Ela sai do banco e puxa a mochila pra cima do ombro, segue em direção às escadas e então some depois de alguns degraus. Fico sentado olhando pro meu lanche, que nem consegui comer, sentindo vontade de ir até ela e pedir seu telefone. Vou segurar minha ansiedade e tentar descobrir algo sobre ela. Não sei o que ela fez, mas quero muito falar com ela de novo. 


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