Era mais um dia frio e chuvoso de Setembro. As ruas
estavam movimentadas demais apesar do horário de pico já ter terminado. Ada não
gostava muito de andar na multidão, sempre se sentia espremida feito uma
laranja sem suco no meio de tantas pessoas, mesmo quando milagrosamente ninguém
esbarrava nela.
Ada não era uma garota comum, sua estatura era
média, mas seus ossos eram mais finos que os da maioria das garotas de sua
idade – vinte e três anos – estava prestes a completar, apesar de parecer
consideravelmente mais jovem devido à sua condição. Sua pele era mais pálida e
seus cabelos castanhos batiam na altura da bacia. Os olhos acinzentados faziam
parte da herança de seu pai falecido contrastando com os lábios carnudos e o
nariz fino que herdara da mãe.
A intenção era apenas mais um dia comum – ou ao
menos o mais próximo que a garota pudesse conseguir disso -, uma visita
beneficente ao Grupo Solaris – uma casa de repouso para pessoas velhas que, na
opinião de Ada, servia de depósito para velhinhos tristes largados por seus
familiares insensíveis e estúpidos -, dar uma passada na ONG Meus Filhos – uma
organização voltada para o tratamento de crianças com tipos raros de cânceres –
alguns exames de rotina com o Dr. Mathias, e por fim voltar para casa: banho,
um pijama macio e folgado, filme na TV – programa típico da sexta-feira -,
pipoca e um sofá maravilhosamente confortável na sala.
Ada tentou acelerar o passo, não queria se atrasar –
de novo - para a consulta com Mathias, ele sempre fazia um sermão sobre como
ela precisava aprender a ser pontual. Já eram quase quatro da tarde e ela ainda
estava a um quarteirão de distância do consultório. Seu apartamento não ficava
muito longe, mas ela levava uns bons quarenta minutos a pé quando o trânsito
estava apertado.
As botas sem salto eram confortáveis e ótimas para
dias frios onde se precisava andar depressa. Não fosse pelo vento gélido que
soprava nas ruas Ada já teria arrancado o sobretudo que ia até os joelhos. O
cachecol azul petróleo que trazia enrolado no pescoço se misturava com seu
cabelo e destacava o tom de seus olhos.
O consultório do Dr. Mathias ficava a duas quadras
do hospital Santa Maria. O edifício era alto e com um jardim charmoso na
frente. As janelas eram escuras e enormes, os azulejos tinham tom grafite e o
elevador era panorâmico. Qualquer pessoa podia ver que Mathias era um homem de
bom gosto, e com alguns minutos de converso qualquer um o acharia
excepcionalmente inteligente.
Ada foi se aproximando do edifício com um frio
desconfortável na barriga – era sempre assim, por mais vezes que se consultasse
com Mathias, sempre sentiria como se fosse a primeira vez. Ada subiu os quatro degraus da entrada e
seguiu para a recepção, onde Marlene estava elegantemente vestida de branco e
azul, falando ao telefone.
- Se o Senhor remarcar mais uma vez não terei como
encaixá-lo antes de Janeiro do próximo ano... – Marlene abriu um sorriso ao ver
Ada e fez um sinal com a mão pedindo para que ela se sentasse no sofá.
A recepção não era tão diferente da de outros
consultórios. Era sóbria, como se pertencesse a um advogado, mas também era de
certa forma acolhedora, como se fosse a sala de espera do consultório de uma
mãe. Havia um sofá de cinco lugares e mais dois sofás de três, uma mesinha de
centro com algumas revistas e um vaso de flor – parecia ser orquídea -, um
tapete azul escuro enorme debaixo da mesinha, combinando com o branco gelo dos
três sofás.
– Sim eu
compreendo, mas o Senhor também deve compreender que atendemos mais de quarenta
pacientes por dia, e no momento apenas o Dr. Mathias e a Dr. Rafael estão
atendendo, a Dra. Elizabeth está de licença gestante. A agenda da clínica está
cheia até Janeiro... – Marlene fez um gesto com a mão para o telefone na
intenção de ofender quem estava do outro lado da linha, o que fez Ada rir e
relaxar um pouco – Sim Senhor... Às
10h15min... Perfeitamente... Agradecemos pelo contato. Passar bem.
Marlene soltou um suspiro alto, passou as mãos
pelos fios de cabelo soltos na lateral do rosto tentando colocá-los de volta no
lugar. Levantou-se graciosamente alisando o uniforme, deu a volta na mesa e
caminhou até Ada, oferecendo um abraço e um sorriso caloroso para Ada, que levantou
do sofá e retribuiu a ambos igualmente.
- Que bom vê-la! – Disse Marlene soltando o abraço
– Não que eu fique feliz em ver você em um consultório médico, mas fico feliz
em te ver. Você sempre some depois
das consultas. Te dei meu endereço e telefone e você nunca vai me visitar!
Ada sorriu um tanto desajeitada, não estava
acostumada ao convívio social, seus amigos de infância já não moravam mais na
pequena cidade desde o colegial, partindo em busca dos “grandes sonhos” como a
faculdade, o dinheiro, a independência. Ada, no entanto, estava “presa” no
próprio apartamento, não podendo viajar ou se ausentar por muito tempo de casa.
Não que não quisesse, pelo contrário, seu maior sonho era conhecer o mar,
sentir os pés sobre a areia e o sol sob a pele, mas a sua condição não permitia
tamanha extravagância.
- É bom vê-la também, Marlene. – Sorriu.
Um ruído se fez e uma porta se abriu. Era o Dr. Mathias
saindo de seu consultório com um rapaz. Mathias não era muito alto, tinha uma
barriga que denunciava o gosto por chopp, cabelos sempre bem curtos e o começo
de uma barba que ameaçava nascer. Mathias não era gordo, mas estava longe de
ser magro também. Tinha uma voz grave que saía sempre alta por mais que ele
tentasse diminuir o volume dela. Tinha por volta de uns quarenta, quarenta e
cinco anos. Estava todo de branco com um jaleco por cima da roupa e uma caneta
na mão esquerda.
Ao seu lado estava um rapaz, não tinha nada de
especial nele, ao menos Ada não enxergava nada do tipo, mas ele possuía um
magnetismo incrível, ombros largos, sorriso discreto, queixo quadrado e maçãs
do rosto bem desenhadas. Não havia nada de especial nele, e mesmo assim Ada não
conseguia tirar os olhos daquele rapaz...
***

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