Ao som das notas que o vento cria, debaixo daquela árvore eu me sentei,

Viajei em pensamentos e dos conceitos da sociedade eu me libertei...

Ao som das notas que o vento cria, na minha mente sigo a melodia,

E encontro na carcaça do bicho homem só orgulho e grande tirania...

segunda-feira, 8 de junho de 2015

-- INSOLITUM - Entre os entendidos: Parte I --

Era mais um dia frio e chuvoso de Setembro. As ruas estavam movimentadas demais apesar do horário de pico já ter terminado. Ada não gostava muito de andar na multidão, sempre se sentia espremida feito uma laranja sem suco no meio de tantas pessoas, mesmo quando milagrosamente ninguém esbarrava nela.  

Ada não era uma garota comum, sua estatura era média, mas seus ossos eram mais finos que os da maioria das garotas de sua idade – vinte e três anos – estava prestes a completar, apesar de parecer consideravelmente mais jovem devido à sua condição. Sua pele era mais pálida e seus cabelos castanhos batiam na altura da bacia. Os olhos acinzentados faziam parte da herança de seu pai falecido contrastando com os lábios carnudos e o nariz fino que herdara da mãe.

A intenção era apenas mais um dia comum – ou ao menos o mais próximo que a garota pudesse conseguir disso -, uma visita beneficente ao Grupo Solaris – uma casa de repouso para pessoas velhas que, na opinião de Ada, servia de depósito para velhinhos tristes largados por seus familiares insensíveis e estúpidos -, dar uma passada na ONG Meus Filhos – uma organização voltada para o tratamento de crianças com tipos raros de cânceres – alguns exames de rotina com o Dr. Mathias, e por fim voltar para casa: banho, um pijama macio e folgado, filme na TV – programa típico da sexta-feira -, pipoca e um sofá maravilhosamente confortável na sala.  
Ada tentou acelerar o passo, não queria se atrasar – de novo - para a consulta com Mathias, ele sempre fazia um sermão sobre como ela precisava aprender a ser pontual. Já eram quase quatro da tarde e ela ainda estava a um quarteirão de distância do consultório. Seu apartamento não ficava muito longe, mas ela levava uns bons quarenta minutos a pé quando o trânsito estava apertado.

As botas sem salto eram confortáveis e ótimas para dias frios onde se precisava andar depressa. Não fosse pelo vento gélido que soprava nas ruas Ada já teria arrancado o sobretudo que ia até os joelhos. O cachecol azul petróleo que trazia enrolado no pescoço se misturava com seu cabelo e destacava o tom de seus olhos.

O consultório do Dr. Mathias ficava a duas quadras do hospital Santa Maria. O edifício era alto e com um jardim charmoso na frente. As janelas eram escuras e enormes, os azulejos tinham tom grafite e o elevador era panorâmico. Qualquer pessoa podia ver que Mathias era um homem de bom gosto, e com alguns minutos de converso qualquer um o acharia excepcionalmente inteligente.

Ada foi se aproximando do edifício com um frio desconfortável na barriga – era sempre assim, por mais vezes que se consultasse com Mathias, sempre sentiria como se fosse a primeira vez.  Ada subiu os quatro degraus da entrada e seguiu para a recepção, onde Marlene estava elegantemente vestida de branco e azul, falando ao telefone.

- Se o Senhor remarcar mais uma vez não terei como encaixá-lo antes de Janeiro do próximo ano... – Marlene abriu um sorriso ao ver Ada e fez um sinal com a mão pedindo para que ela se sentasse no sofá.

A recepção não era tão diferente da de outros consultórios. Era sóbria, como se pertencesse a um advogado, mas também era de certa forma acolhedora, como se fosse a sala de espera do consultório de uma mãe. Havia um sofá de cinco lugares e mais dois sofás de três, uma mesinha de centro com algumas revistas e um vaso de flor – parecia ser orquídea -, um tapete azul escuro enorme debaixo da mesinha, combinando com o branco gelo dos três sofás. 

 – Sim eu compreendo, mas o Senhor também deve compreender que atendemos mais de quarenta pacientes por dia, e no momento apenas o Dr. Mathias e a Dr. Rafael estão atendendo, a Dra. Elizabeth está de licença gestante. A agenda da clínica está cheia até Janeiro... – Marlene fez um gesto com a mão para o telefone na intenção de ofender quem estava do outro lado da linha, o que fez Ada rir e relaxar um pouco – Sim Senhor...  Às 10h15min... Perfeitamente... Agradecemos pelo contato. Passar bem.

Marlene soltou um suspiro alto, passou as mãos pelos fios de cabelo soltos na lateral do rosto tentando colocá-los de volta no lugar. Levantou-se graciosamente alisando o uniforme, deu a volta na mesa e caminhou até Ada, oferecendo um abraço e um sorriso caloroso para Ada, que levantou do sofá e retribuiu a ambos igualmente.

- Que bom vê-la! – Disse Marlene soltando o abraço – Não que eu fique feliz em ver você em um consultório médico, mas fico feliz em te ver. Você sempre some depois das consultas. Te dei meu endereço e telefone e você nunca vai me visitar!

Ada sorriu um tanto desajeitada, não estava acostumada ao convívio social, seus amigos de infância já não moravam mais na pequena cidade desde o colegial, partindo em busca dos “grandes sonhos” como a faculdade, o dinheiro, a independência. Ada, no entanto, estava “presa” no próprio apartamento, não podendo viajar ou se ausentar por muito tempo de casa. Não que não quisesse, pelo contrário, seu maior sonho era conhecer o mar, sentir os pés sobre a areia e o sol sob a pele, mas a sua condição não permitia tamanha extravagância.

- É bom vê-la também, Marlene. – Sorriu.

Um ruído se fez e uma porta se abriu. Era o Dr. Mathias saindo de seu consultório com um rapaz. Mathias não era muito alto, tinha uma barriga que denunciava o gosto por chopp, cabelos sempre bem curtos e o começo de uma barba que ameaçava nascer. Mathias não era gordo, mas estava longe de ser magro também. Tinha uma voz grave que saía sempre alta por mais que ele tentasse diminuir o volume dela. Tinha por volta de uns quarenta, quarenta e cinco anos. Estava todo de branco com um jaleco por cima da roupa e uma caneta na mão esquerda.


Ao seu lado estava um rapaz, não tinha nada de especial nele, ao menos Ada não enxergava nada do tipo, mas ele possuía um magnetismo incrível, ombros largos, sorriso discreto, queixo quadrado e maçãs do rosto bem desenhadas. Não havia nada de especial nele, e mesmo assim Ada não conseguia tirar os olhos daquele rapaz...



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